As palavras de Fagner cortam em tiras a carne de seus alvos. O cantor, que se define como ''chato'', critica tudo, sem receios de desafetos.

Quando diz que falta qualidade na música, a que se refere?
A música ficou mais dançante, feita para que dêem pouca atenção ao que se diz. Está cheia de chavão. Não requer qualidade, ficou simplória.

Faltam artistas de qualidade no Norte e Nordeste?
Falta no Brasil todo. Norte e Nordeste, pelo contrário, abastecem o Brasil. O Zeca Baleiro é um talento. Sempre surge gente do Nordeste com qualidade, como o Lenine.

E fenômenos como o Calypso?
Eles fazem uma música que vem na esteira da dança. Fazem uma coisa de carimbó misturada com lambada. É música de espetáculo. Não é forró autêntico, são forrós envenenados, têm seu valor como espetáculo e como movimento de multidão. O Calypso é a vingança do Norte contra a Bahia.

Os artistas se omitem ao não contestarem a política do governo?
Estão acomodados. Falta um pouco de indignação, estão todos sem ideologia, a juventude está correndo atrás de trio elétrico. Antes, corria atrás do impeachment do Collor. É um momento político frágil, sem lideranças. Na música, todos estão comportados atrás de financiamento de leis e ficaram com medo de fazer críticas ao ex-ministro Gilberto Gil.

Você chamou Gilberto Gil de Pôncio Pilatos. Por quê?
Na época de sua gestão, houve coisas para serem questionadas, como a queda do mercado de música no País. Houve projetos para redução de impostos nos quais ele não se envolveu. O Gil não se meteu. Ele, como artista e ministro, tinha de se envolver nisso. Foi omisso e, ao mesmo tempo, fez agenda de artista (enquanto era ministro). Precisamos de um ministro que lute, porque esta é uma luta inglória.

O senhor é contra a internet?
Sou contra as pessoas baixarem música de graça. A música, para chegar ali, teve gasto. É fantástico ver as pessoas ouvindo tudo, mas que isso seja legalizado. Ainda tenho muitas fitas cassete.

Nunca se ouviu tanta música como hoje...
Ilegalmente. Se for legal, melhor. O disco é muito caro no Brasil, hoje se grava com menos investimento. Poderiam baixar os preços, mas isso tem de vir de cima para baixo.

Em sua opinião, que artista merece reconhecimento nacional e ainda não tem?
O Patativa do Assaré é o maior poeta do Brasil. E o Francisco Carvalho faz parte do rol dos maiores poetas da língua portuguesa.



Quem hoje ''dorme no ponto''?
Bastante gente. A Bossa Nova é uma coisa fantástica, mas aturá-la durante um ano inteiro? É mole?

Enjoou da Bossa Nova?
Foi uma elite que a fez. Não é música autêntica brasileira, nunca vendeu no País. Falemos de música brasileira.

Músicas de Jobim e Vinicius não são brasileiras?
Vinicius foi o primeiro e único e Tom é gênio, mas não eram Bossa Nova, eles criaram canções. Aquele foi o melhor momento da música brasileira, mas o que eles fizeram não foram canções brasileiras. Eles são gênios. O movimento inteiro dizia ser Bossa Nova, com aquela batidinha.

E o João Gilberto?

Endeusam demais. Fez aquilo e ficou naquilo. Parou de criar, é o eleito da nata. Não se compara a Tom e Vinicius, que tiveram uma obra vasta. São melhores que João, produziram mais. É meu gosto e não se discute. Bossa Nova é música de mauricinho.

Há muitos conflitos entre músicos e a TV Globo. Passou por isso?
A Rede Globo é uma coisa, as pessoas que trabalham dentro dela são outra. Tenho minhas divergências com pessoas que estão lá e não gostam de trabalhar, mas não é com a Globo em si. Não sirvo a determinados interesses. Questiono, sou chato e cobro quando caricaturam o Nordeste, como no especial do Luiz Gonzaga (feito em maio pelo programa ''Som Brasil''). Fizeram o velho se remexer no túmulo. É preconceito contra o Nordeste. A festa do Prêmio Tim (em maio) para o Dominguinhos foi ridícula. Botaram pessoas cantando sem o menor compromisso. Não fui, recusei. Foram convidadas pessoas que estão em qualquer lugar e que não participaram da vida dele. Desafinaram e erraram as letras, são artistas que têm por trás diretores da Globo faturando em cima. Não querem perder essa mamata. A festa do Dominguinhos foi uma festa de penetra.

E a história de ser parecido com o beatle George Harrison, os planos de fazerem um show? É real?
Iríamos nos encontrar e não conseguimos. Seria em Los Angeles, em 1979. Lamentei profundamente. Sobre ser parecido, é até possível, somos dois feios e magros. O George Martin (produtor dos Beatles) iria produzir um disco meu e eu não aceitei, foi um erro. Sou fã dos Beatles.

Por que não aceitou?
Tinha me comprometido com o Lincoln Olivetti e, para não faltar com a palavra, não fui. Foi bobeira, a maior burrice da minha vida.

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