O feitiço do espelho
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de julho de 2008
Mariana Trigo<br> TV Press 
Muitos atores passam a incômoda sensação de ''déjà vu''. Alguns deles repetem sucessivamente o mesmo tipo de personagem na tevê. Afinal, em alguns casos, o tipo físico dos atores pode interferir diretamente no perfil de personagens. Com isso, certos personagens se tornam repetitivos e alguns atores ficam até marcados por só fazerem o mesmo gênero de papéis. Guilherme Weber, por exemplo, que já viveu o altivo Tony em ''Da Cor do Pecado'', e o ricaço Benny em ''Queridos Amigos'', agora interpreta o excêntrico estilista Artur X em ''Ciranda de Pedra''. Ou seja, sempre personagens esnobes e bem-sucedidos. ''O fato de ser louro, alto e ter olhos azuis me leva a ter personagens ricos e, no máximo, extravagantes. A tevê precisa passar rapidamente uma informação visual, o que confirma que a telenovela está rodeada de clichês'', analisa Guilherme.
O mesmo acontece com Cláudia Raia, que vive a perua Donatela em ''A Favorita''. Apesar de já ter feito mulheres de diversas classes sociais, a atriz, em ótima forma física, sempre interpreta mulheres sensuais na tevê, desde sua estréia em novelas como a prostituta Ninon em ''Roque Santeiro''. ''Tenho esse 'physique d'role'. Sou uma mulher muito grande, sexy, extravagante. Nunca neguei isso porque também tenho talento. É mais um atributo'', valoriza a atriz. ''Televisão é imagem. Um bom tipo físico pode ajudar muito um ator, mas sempre acompanhado de talento. A Cláudia fez belamente a Tancinha em ''Sassaricando''', concorda o autor Silvio de Abreu.
Dos mais altos aos mais baixinhos, dos negros aos louros, vários atores se adaptam melhor a determinado tipo de papel por características mais simples, como um rosto e uma estatura tipicamente brasileira. Matheus Nachtergaele, apesar da descendência belga, constata que tem o tipo físico que se encaixa desde um personagem trabalhador urbano até um peão de interior, como o Carreirinha de ''América''. ''Os autores já sabem que podem pensar em mim para tipos assim, como marginal, travesti, peão, alcoólatra. Esses papéis me agradam muito. São impressões bem brasileiras'', avalia Matheus.
Nem todos podem ser tão camaleônicos em tipos populares. Dalton Vigh, por exemplo, tem certeza de que nunca vai ser escalado para interpretar um feirante ou um mecânico. ''Já me conformei. Brinco que entrei para a carreira de ator para não usar terno. Mas só uso terno com meus personagens. O meu tipo físico de 1,90 m de altura me restringe a certos papéis'', admite Dalton, que fez o empresário Marconi Ferraço em ''Duas Caras''.
Betty Lago, que começou sua carreira como modelo, também teve restrições com suas personagens. Por ter feições finas e ser muito alta, a atriz normalmente é escalada para viver mulheres ricas, ligadas ao mundo da moda ou ardilosas vilãs. ''Quando ela viveu a Carlota Joaquina em 'O Quinto dos Infernos' trabalhava sua postura e altura para dar poder e majestade à personagem'', lembra Carlos Lombardi, autor da minissérie.
Apesar das semelhanças entre ator e personagem serem cada vez maiores no ritmo industrializado das novelas, no passado, essas analogias não eram tão relevantes e passavam despercebidas. Afinal, no início das telenovelas no Brasil, a referência era o teleteatro, com maiores interferências do teatro. ''Era permitido, por exemplo, que Sérgio Cardoso pudesse viver um preto-velho em 'A Cabana do Pai Tomás', na Globo, em 1969'', recorda o autor Lauro César Muniz. Atualmente, seria inimaginável um branco todo maquiado fazer papel de negro numa novela.
Instantâneas
- Pelo seu porte e altura de modelo, Luciano Szafir sempre interpretou homens bem-sucedidos em novelas, como o atual empresário Felipe em Amor e Intrigas.
- Nelson Xavier, que vive o bronco Edivaldo em A Favorita, tem uma carreira marcada por diversos tipos nordestinos, pobres ou sofridos, como o motorista Sebastião, de Senhora do Destino.
- Juliana Silveira penou no início de sua carreira. Apesar das feições de mocinha, a atriz nem sempre viveu personagens bem-sucedidas nas novelas. No comecinho da minha carreira alguns diretores me rotulavam com cara de brega. Era um absurdo!, esbraveja a atriz.
- A maioria dos personagens de Victor Fasano fez jus aos quase 2 m de altura do ator. Com porte de modelo, quase sempre Victor interpretou papéis de homens ricos, como o americano James Perkins em América ou o Otávio de O Clone.


