O fast food predador
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de março de 2017
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para Folha 2 

A grande sacada de "Fome de Poder" (título brasileiro grosseiro que despreza o muito irônico original, "The Founder/O Fundador") é a disposição de subverter a lógica dramática segundo a qual os personagens de filmes baseados em vidas reais devem ser sempre figuras heroicas e amáveis. No caso de Ray Kroc (Michael Keaton), ele é essencialmente um predador com habilidade única e apetite voraz para detectar, amplificar e se apropriar das contribuições de outras pessoas com mais talento e princípios. Kroc foi o homem que, a partir da década de 1950, transformou uma lanchonete de bairro na maior rede de fast food do mundo. E neste processo passou a perna em dois homens simples, ingênuos e honrados, os irmãos Dick e Mac McDonald. Em sua trajetória rumo ao triunfo planetário e à fortuna incalculável, Kroc não apenas roubou a ideia o método de produção em série dos sanduíches e o nome: ele ainda colocou os verdadeiros fundadores fora do negócio.
John Lee Hancock, roteirista de alguns bons filmes de Clint Eastwood e diretor de dramas biográficos sobre esporte, utiliza uma narrativa convencional, tanto visual como estruturalmente. E nem havia necessidade de novidades para expor os fatos: interessava mesmo era narrar a batalha entre os dois irmãos e o homem obcecado pelo sucesso a qualquer preço, o empresário arrivista que se transforma em magnata pela via do discurso patrioteiro e da mentira para construir um mito ao redor de si mesmo, o que resulta inevitável pensar em Donald Trump. Apesar de contar com a faca e o queijo, em nenhum momento Hancock direciona seu filme para a sátira feroz do capitalismo a premissa facilmente poderia propiciar este viés. Não coloca Kroc num pedestal, mas também não pretende destruir sua figura. Sequência após sequência, o filme honra a humildade e decência dos Mcdonald, mas ao mesmo tempo nos convida a apreciar a visão e o olfato de quem se associou a eles para expandir o negócio.
Consumado o golpe, Kroc não se vê como má pessoa: nenhum vilão é consciente de sua vilania. Partindo do retrato de um sonhador com ambições legítimas, "Fome de Poder" chega ao perfil de um tirano com decisões radicais, e nesta caminhada o tom do filme não se altera nem com a mais requintada maquiavelice do Kroc, o que provoca uma sensação de desconcerto. É mais ou menos como se você estivesse comendo um Big Mac: primeiro você a sedução, em seguida a culpa. Assim, em nenhum momento o filme reflexiona sobre as consequências que teve o desmesurado crescimento da empresa. Não questiona sobre efeitos da fast food na saúde das pessoas, sobre a economia mundial ou sobre o meio ambiente. Não se encontra vestígio crítico quanto à cultura da rapidez da alimentação que substituiu a qualidade. Ao contrário do documentário "Super Size Me", que atacou frontalmente a estratégia McDonalds como causadora direta do aumento do índice de obesidade nos EUA, "Fome de Poder" não se aproxima criteriosamente a marca dos arcos dourados.
Segundo o filme, a história da criação da rede McDonalds é bem interessante, recheada de anedotas e curiosidades, e uma espécie de manual sobre empreendedorismo e gestão de empresas. Mas sem um posicionamento ético definido, a moral que permanece é perigosa, aquela ancestral, dos fins que justificam os meios. Nas palavras do próprio Kroc, o mundo pertence somente aos impiedosos. Michael Keaton, renascido a partir de "Birdman", mostra novamente que é único em seu método paranoico-crítico de interpretação.


