Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Publicitário, cronista esportivo e escritor, o eclético Ernani Buchmann comemora a boa aceitação de seu livro ‘‘Heróis da Liberdade’’, lançado na semana passada, em Curitiba
Uma praça chamada Liberdade, de um cafundó qualquer batizado de Vila da Glória, situado em algum trecho que vai de Curitiba ao sul de Santa Catarina, e seus heróis — breves e pálidos personagens fincados nos corações das testemunhas por seus grandes feitos e derrotas — estão passando pelos olhos e emoções de, no mínimo, duas centenas de curitibanos.
‘‘Os Heróis da Liberdade’’, livro de Ernani Buchmann, continua tendo boa saída nas livrarias da cidade, porém não se compara ao sucesso que foi a noite de lançamento, uma segunda-feira, a primeira depois do Dia dos Pais. Não era a melhor data para um evento do gênero, e contrariando as expectativas apareceu gente de todo lado para cumprimentar o escritor.
‘‘Basicamente os que foram, eram os que me conheciam. Isso é agradável, porque você sente que são seus amigos, espécie de patrimônio que você incorpora’’, diz Ernani. O resultado da sessão foram 192 livros autografados ao longo de 3 horas e 15 minutos.
Ernani conversou com o •Folha Dois sobre seu segundo livro, publicado 12 anos depois de ‘‘Cidades e Chuteiras’’. Discorreu sobre o fascínio que tem pelas pequenas cidades, como elas são cenários de sua literatura, citou as influências literárias e o encanto que há na ficção. Ela é sempre a realidade transmutada numa nova vida, com acertos e desacertos que o autor lhe dá.
Em 1987 você lançou ‘‘Cidades e Chuteiras’’ e agora, passados 12 anos, traz ‘‘Os Heróis da Liberdade’’. Há uma irmandade unindo essas duas obras?
Bem, são propostas diferentes, mas o que existe em comum é que em ‘‘Cidades e Chuteiras’’ havia reflexões sobre algumas cidades das quais sou fã e onde eu vivi. Já ‘‘Os Heróis da Liberdade’’ se passa numa pequena cidade. Enquanto o primeiro livro trazia reflexões típicas do cronista, este é uma ficção.
Os lugarejos são essenciais no seu trabalho?
Sou apaixonado por cidades de forma geral. Gosto de passear, andar por suas ruas nas manhãs de domingo, porque todas elas têm um mesmo cheiro, aquele ar de feriado e uma certa paz que é típica dos domingos de manhã. Não importa se forem do tamanho de Paris ou Barra do Jacaré.
Quem são os heróis de uma praça que tem o sugestivo nome de Liberdade?
São pessoas que vivem em torno de uma praça de uma pequena cidade de interior; são heróis de uma glória efêmera. Às vezes aquilo que para eles é glorioso, na verdade não tem nenhuma repercussão fora dos limites do município, ou daquela praça. Esta é uma coisa que me fascina, mas que a literatura brasileira explora muito pouco. Estamos hoje voltados para as paranóias do grande centro. O pavor da metrópole entranha nas pessoas e faz com que as criações se atenham a isso. O Brasil não é só metrópoles. Tem essa coisa do interior que é tão rica, tão agradável e pouco explorada. Os escritores nordestinos, num determinado momento, utilizaram muito bem essa realidade, mas nós do Sul nunca tomamos esse caminho. Esquecemos deste mundo rico que é o da cidade interiorana.
Os contos que se entrelaçam em ‘‘Os Heróis da Liberdade’’ foram retirados de um conjunto de trabalhos escritos anteriormente, ou foram surgindo a partir de uma idéia inicial?
Eu tinha idéia da cidade e em alguns dos onze contos tomei por base fatos reais. Pelo menos em dois. Os outros fui compondo... A ficção tem essa grande capacidade de transformação, você recria a realidade, transforma aquilo que viveu em algo muito maior ou muito menor, não importa. Você é uma recriação daquilo que traz em si. Eu não posso recriar o universo sueco, mas fui criado em cidades pequenas. Se tem pessoas que se reúnem em frente à farmácia, é porque se reuniam assim. A história do sujeito que narrou um gol sem estar no estádio, no mais puro chute, aconteceu em Apucarana, num jogo com o Londrina, na década de 60. As outras são acontecimentos comuns, que ocorrem em cidades do interior. Eu tinha quatro ou cinco capítulos prontos na cabeça, os outros foram surgindo no decorrer da própria narrativa. Assim compus este perfil da cidade.
Pode-se dizer que este seja um livro autobiográfico?
Tem muita coisa autobiográfica. O primeiro conto, por exemplo, do ciclista colombiano andando durante uma semana de bicicleta em torno da praça, baseou-se em fato real. Isso aconteceu aí por 55, 57 em Joinville, com um colombiano que pedia ajuda das pessoas. Ficou uma semana lá, ganhou bicicleta, dinheiro, estada em hotel. Eu, garotinho, via aquilo como uma coisa que ultrapassava meu entendimento. A ficção ficou por conta da paixão da mulher dele com o jogador de futebol.
Escrever é um resgate?
Sim, é claro. Acho que a gente se trai naquilo que a gente escreve. Se formulo uma petição jurídica, estarei sendo absolutamente técnico. Agora, quando vou fazer alguma coisa que envolva emoção, traio todos os meus sentimentos. Gosto de escrever com humor, não sei escrever para baixo. Acredito que a literatura que faço passa isso ao leitor, e esse mundo do interior também tem esse componente. As pessoas são extremamente brincalhonas, divertidas. Há um gozo mútuo entre elas. Os apelidos, a ida para a zona — são coisas que fazem parte desse mundo. Não consigo escrever sobre outro universo.
A publicidade de certa forma entra em seu texto? Você se trai com seu lado publicitário?
Ao longo do exercício de escrever você acaba criando um estilo. Eu venho criando-o graças à publicidade, que me obrigou a escrever compulsoriamente durante muito tempo. Fui, praticamente durante 15 anos, o criativo de agência de propaganda, e como criativo você tem que ter um texto seco, agradável, e ao mesmo tempo absolutamente enxuto. Sem advérbios, com adjetivos corretos, exatos. É um texto muito mais formado por frases curtas. Então você acaba passando isso para o texto de ficção. Isso está arraigado em mim, não tenho como me livrar.
A literatura seria um contraponto à publicidade?
Acho que sim. A literatura funciona para mim como uma válvula de escape. É um outro mundo onde não tenho problemas com duplicata, demissão de funcionários, perda de cotas, devedores. É um universo que existe apenas e tão somente na minha cabeça. No momento em que posso entrar nesse universo, fica muito agradável a vida. Então você sair do dia-a-dia estressante e poder sentar num computador à noite por uma, duas horas é a melhor coisa. É uma maneira de você se desestressar.
Você escreve com assiduidade ou quando se sente inspirado?
Procuro escrever todos os dias, o que me embala o sono são histórias que começo a montar. O último conto de ‘‘Os Heróis da Liberdade’’ ‘‘escrevi’’ na cabeça durante uma viagem aos Estados Unidos. Costumo escrever duas a três páginas por dia, mas me sobra uma, no máximo. Não tenho capacidade para mais do que isso. Alguém já disse que o ato de escrever, na verdade, é cortar. Talvez essa seja a parte mais difícil, mas se não cortar você acaba fazendo uma prosa rebarbativa. Tenho muito cuidado com isso; com a exatidão e a não repetição das palavras, com a forma da frase. Procuro um pouco esse lado esteta, que acho fundamental. Teria muito pudor em colocar na rua um livro que as pessoas dissessem: ‘‘Esse sujeito está escrevendo como fala’’. Acho que temos uma obrigação com a língua que é de deixá-la mais límpida, mais agradável, melhor de ser lida. Essa é uma função de quem escreve. Por isso que cortar, recolocar palavras, procurá-las no dicionário — às vezes me perco nele, que é uma coisa fantástica, um universo completamente deslumbrante —, para mim funciona também como um contraponto.
Poesia faz parte de suas criações literárias?
Confesso que já cometi alguns poemas, mas não consigo fazer poesia da maneira como gostaria. Paulo Leminski dizia que poeta é aquele que se considera. Eu não consigo me considerar. Já cometi algumas, mas não tenho esse dom. Poesia para mim é torturante; não consigo escrever sem me torturar. Isso já não acontece com a prosa, que é onde ainda me divirto; na poesia seria um terror.
Você sente no seu texto alguma influência?
Muita. Leopoldo Serran, roteirista de ‘‘O Que É Isso, Companheiro?’’, ‘‘Bye Bye Brasil’’, ‘‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’’, diz que ‘‘Heróis da Liberdade’’ tem muita influência de Jorge Amado. Para mim tem influência do Graciliano Ramos, José Condé; Guimarães Rosa, do Dalton Trevisan, Gabriel García Márquez, da literatura russa do século passado. Sou influenciado por todos os autores que li, e acho que todas as pessoas o são. Quero deixar bem claro que estou citando uma série de autores que para mim são muito caros e não significa que esteja me colocando ao lado deles. Sofrer influência não quer dizer que você tenha capacidade de escrever igual ou melhor que eles.
À medida que o leitor se identifica com o que se lê, de alguma maneira ocorre uma osmose dentro de si. Seria isso?
Você pega os autores que viveram e escreveram sobre esse tipo de universo, que é o das pequenas cidades, e você vai ver que eles têm muita coisa em comum. De todos os que citei todos têm um estilo de romancista, que significa entrar profundamente no personagem, se entregar naquilo que está escrito. Deixei muito claro neste livro um certo tom de cronista. É como se alguém narrasse a vida naquela cidade, mas sem entrar em profundidade. Fiz questão de deixar assim, porque era a maneira como eu sentia. Se você deixa a crônica um pouco mais no tom da narrativa, às vezes se corre o risco de ficar apenas anedótico, mas para mim ele flui melhor. Prefiro correr esse risco.

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