O fantasma de P O U N D
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de outubro de 1997
Nelson Capucho 
Agência Estado
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
1945: à sombra dos cogumelos atômicos de Hiroshima e Nagasaki, termina a Segunda Guerra Mundial.
No Centro de Adestramento Militar americano, em Pisa, na Itália, o poeta está preso em uma jaula de metal. A cama é apenas um cobertor. Torturante luz permanece acesa sobre a sua cabeça o tempo todo. Exausto, não consegue dormir. Exposto à chuva, ao frio e ao escárnio de soldados das forças aliadas, não sabe quanto ainda suportará.
- Porco fascista! - É o xingamento de um cabo.
O poeta tem 60 anos, mas o peso da humilhação parece lhe acrescentar mais idade.
- Traidor! - completa o soldado, antes de cuspir no chão.
O homem enjaulado é um literato de respeito. Seu nome: Ezra Loomis Pound. Norte-americano, nascido em Hailey, numa região pouco explorada de Idaho, a 30 de outubro de 1885.
Estudou na Universidade de Pennsylvania e no Hamilton College de Clinton. Logo que se formou, em 1905, fez sua primeira viagem à Europa e se encantou com a efervescência intelectual do velho continente. Retornou então, em 1908, para morar em Londres. Publicou seu primeiro livro de versos em Veneza. Mudou-se em 1920 para Paris, onde liderou grupos de vanguarda artística, como os imagistas e os vorticistas. Pound foi também um dos fundadores da descolada revista Blast e editor da Poetry.
Quatro anos depois, transferiu-se para Rapallo, na Riviera italiana, onde, em 1925, publicou o primeiro volume de sua mais audaciosa obra - os Cantos -, que só completaria 40 anos depois. Pesquisou, traduziu (transcriou) e fez crítica literária de peso. Ainda teve tempo para se preocupar com os sistemas monetários nacionais, que considerava a pedra angular de toda a ordem social. Este, muito provavelmente, era o segundo assunto favorito do poeta.
Seus dados biográficos podem ser encontrados em qualquer enciclopédia que mereça esta denominação. As enciclopédias registram também o que teria sido a fatal pisada na bola de Ezra Pound: Durante a Segunda Guerra Mundial, aderiu ao fascismo, trabalhando para Mussolini em propaganda antialiada pelo rádio, escreveu o autor do verbete com o nome do poeta na Enciclopédia Britânica. Vivendo durante muitos anos na Itália, Pound aderiu ao fascismo, fez (...) propaganda antialiada, foi preso pelas tropas norte-americanas. - está impresso na Delta Larousse.
O bom senso recomenda que, antes de uma conclusão, se ouça sempre o outro lado.
Eu achava que estava lutando em favor de uma questão constitucional. Quero dizer: pode ser que eu estivese completamente maluco, mas sentia, sem dúvida, que não estava cometendo uma traição, diria Pound, em entrevista a Donald Hall, da The Paris Review, editada posteriormente no livro Writers at Work (no Brasil, Escritores em Ação, Editora Paz e Terra, 1982 - 2ª edição).
Sabe-se hoje que Pound não era lá um queridinho do governo de Mussolini. As irradiações de seu programa na American Hour, pela Rádio Roma, haviam sido suspensas há algum tempo: a polícia fascista desconfiava que o poeta fosse agente secreto norte-americano, transmitindo mensagens em código.
Na verdade, suas viagens literárias diante do microfone - como sua poesia, um mix de invocações a poetas e mitos americanos, prospecções arqueológicas em textos gregos, pinceladas renascentistas e citações orientais - bem que podiam gerar esse tipo de suspeita.
A justiça dos Estados Unidos, ouvindo as gravações de seus programas malditos, não descobriu nenhuma atitude criminosa. Há, sim, críticas contundentes ao que considerava irreparável mediocridade e repugnante velhacaria do presidente Franklin Roosevelt. Mas nada de louvores ao nazismo, ao fascismo ou a seus expoentes, Adolf Hitler e Benito Mussolini. Aliás, a basear-se em gravações, o próprio Winston Churchil estaria mais complicado que o poeta: há registros de que, numa conferência em Roma, em 1927, Churchil comparou o emergente Hitler e o já governante italiano Mussolini ao ícone americano George Washington.
O crítico brasileiro Gerardo Mello Mourão, a propósito da lembrança da morte de Pound, publicou em 1978 excelente artigo no Jornal do Brasil, no qual alerta para um pormenor pouco conhecido ou manhosamente escamoteado sobre esta questão. Mourão escreveu: Quando foi declarada a guerra entre os Estados Unidos e a Itália, o poeta quis retornar ao seu país, aproveitando o primeiro trem de repatriamento, em 1942. Ordens pessoais de Roosevelt, que contra ele guardava odioso rancor, não perdoando ao poeta a acusação que sempre lhe fizera de violador da Constituição, determinaram um despacho burocrático-militarista ao seu pedido de passaporte. Despacho negativo, naturalmente.
Na citada entrevista de Pound à The Paris Review, há o seguinte diálogo entre Donald Hall e o poeta:
Entrevistador: Sei que o senhor considera a reforma monetária como a chave de um bom governo. Desejaria saber mediante que processo o senhor passou dos problemas estéticos para os problemas governamentais. Acaso a Grande Guerra (1ª ), em que morreram tantos de seus amigos, foi responsável por isso?
Pound: A Grande Guerra chegou como uma surpresa e, certamente, ver os ingleses - essa gente que jamais fez coisa alguma - unirem-se e lutarem, foi algo sumamente impressionante. Mas eles morreram, e a gente passou os vinte anos seguintes tentando evitar a Segunda Guerra. Não sei exatamente quando começou meu estudo sobre o governo. Acho que a redação da New Age me ajudou a encarar a guerra não como um acontecimento isolado, mas como parte de um sistema, uma guerra após a outra.
O homem que defendia que cada idéia fosse analisada isoladamente e não em pacotes, como única saída para se escapar da lavagem cerebral cotidiana, talvez não tenha sido muito bem compreendido naquele momento de tensão mundial.
Num mundo enlouquecido, ele não cessou de gritar: Parem! Parem! Enquanto milhões mergulhavam as mãos em sangue, ele apenas clamava por paz, entusiasma-se o biógrafo Eustace Mullins em This Difficult Individual Ezra Pound.
Da jaula na Itália (na terceira semana, sofreu colapso nervoso, acompanhado de amnésia parcial e crise de claustrofobia), Ezra Pound foi levado aos Estados Unidos, onde deveria ser julgado pela acusação de traição. Caso fosse condenado, morreria por fuzilamento. Escritores de diversas partes do mundo se ergueram em sua defesa. E o que ocorreu foi um estranho desfecho. Pound acabou não tendo um julgamento. Considerado mentalmente incapaz de se defender das denúncias do governo norte-americano, foi internado em um manicômio de Washington, onde permaneceu enclausurado durante 13 anos. Neste período, escreveu talvez a melhor parte dos Cantos.
Após todo o sofrimento, retornou à Europa, em 1958, com natural estranhamento diante da paisagem, para viver ao lado da filha em Veneza. Morreu no dia 1º de novembro de 1972. Uma gôndola cheia de flores levou seu corpo da igreja de San Giorgio Maggiore até o cemitério da ilha de San Michele.
Ezra Pound não é o que se pode chamar de uma unanimidade (veja texto nesta página). Mas ainda hoje, onde qualquer crítico de literatura estiver se desviando do caminho honesto, seu fantasma certamente há de estar rodando, a soprar nos ouvidos alertas como este: Os partidários de idéias particulares podem dar mais valor a escritores que concordem com eles do que a escritores que não concordem; podem dar - e usualmente dão - mais valor a maus escritores do seu partido ou religião do que a bons escritores de outro partido ou igreja.
Mas seu fantasma pode também dar esta elegante paulada: A linguagem nebulosa dos trapaceiros serve apenas a objetivos temporários.


