Um homem, uma cidade, um deserto. A imagem desoladora de um Tom Cruise que não se reconhece diante de uma cidade vazia é a única possibilidade de se atribuir a Vanilla Sky qualquer mérito próprio dos grandes filmes. O terceiro trabalho como diretor do também roteirista Cameron Crowe (‘‘Jerry Maguire’’ e ‘‘Almost Famous’’) nos oferece a trajetória de um típico americano bem sucedido estabilidade financeira e renome entre as mulheres -, que sucumbe ao mais detestável cenário destinado a esse modelo social: a perda da imagem, da beleza física, após um acidente conturbado.
Refilmagem de um bom exemplar do novo cinema espanhol (‘‘Abra Los Ojos’’, de Alejandro Amenabar), essa adaptação (ou facilitação?), co-produzida pelo astro Cruise, mantém-se fiel a todos os mandamentos vigentes do atual cinema americano: propõe-se um conflito dramático facilitado pela simplicidade dos personagens, pela interpretação viciada dos astros que se exigem, e pela prerrogativa que atribui ao público capacidade nula de assimilar qualquer sugestão ou significado um pouco mais implícito.
Trata-se de um cinema na contramão do que Crowe vinha apresentando em seus filmes anteriores. Em ‘‘Jerry Maguire’’, além de elevar Cruise a uma interpretação mais digna, formada pelas ambiguidades que compõem o ser humano, o cineasta aprofundava-se nos valores já consolidados pelo modo americano de viver, em que se estimula o êxito econômico em primeiro destaque. Em ‘‘Almost Famous’’ ele mostrava a mesma face do sonho americano, mas dessa vez, havia uma perspectiva inocente, de descoberta do mundo e das regras que o formulam.
Nesse seu último trabalho, o descompasso vivido pela personagem de Cruise é sondado pela via mais fútil e ilusória. A leitura rasteira que o diretor faz de um personagem que não diferencia o real do imaginário é a mesma que imprime a Penélope Cruz um atuação tão opaca quanto depreciativa, ao lembrar-se o belo desempenho da atriz em outras produções espanholas. Crowe preferiu resignar-se, aceitar as fórmulas que ignoram a complexidade da vida, e deleitou-se em um dilema tão insosso que o próprio espectador fica preso a uma constante pergunta: será que o diretor está mesmo propondo um filme ou um videoclipe um pouco mais extenso? E sob, esse ângulo, evidencia-se apenas uma lápide a do cinema americano, que subestima o público apoiando-se na crença de que o conquista.

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