O falso paraíso urbano
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de junho de 2000
Celso Mattos De Londrina Especial para a Folha2 
O mais novo herói do cinema independente norte-americano atende pelo nome de Todd Solondz. E o mais recente e devastador de seus trabalhos chama-se Felicidade, que acaba de chegar às locadoras. O filme promove um bem-humorado rastreamento de perversões sexuais e morais da família americana. Aclamado no Festival de Cannes de 98, onde saiu com o prêmio da crítica, Felicidade tem cenas desconcertantes, como a que mostra um pai de classe média, tentando dopar toda a família para seduzir o amigo do filho, que veio passar a noite em sua casa.
No filme, Solondz estende seu catálogo de perversões, entrelaçando pequenas história que envolvem pedofilia, assassinatos em série, telefonemas obscenos, onanismo e assuntos afins tudo embrulhado por um inesperado bom humor. Embora recuse o título de crítico da sociedade americana, o diretor Todd Solondz tem se especializado em impiedosas radiografias da família suburbana americana. Distúrbios psicológicos, morais e, principalmente, sexuais, alimentam seus filmes desde Fear, Anxiety and Depression, de 1989 até Bem-vindo à Casa de Bonecas, (1995), que ganhou o prêmio máximo no Festival de Sundance, no mesmo ano.
Felicidade choca pela franqueza com que aborda temas como pedofilia, masturbação, serial killers e a solidão das grandes cidades, mas esse choque é suavizado por um fino senso de humor. O maior trunfo de Solondz é tratar com extremo humanismo tipos absolutamente patéticos em sua luta perdida contra seus instintos mais torpes. No fundo, o cineasta mostra que seus personagens, por mais doentios ou desajustados que sejam, são escravos dos próprios desejos.
Em forma de shorts cuts, o diretor entrelaça as pequenas histórias de uma mulher que mata seu estuprador, cortando-o em pedaços e colocando-os no freezer; do sujeito que se masturba ligando para desconhecidos e de um pai que confessa ao filho de 11 anos que teve relações sexuais com seu amiguinho. Um filme, com certeza, chocante, mas intensamente reflexivo. Lançamento da Alpha. Duração: 134 minutos.
Outros lançamentos
[Retr-Foto:CD6 Y 2 {Grade:Cultura ;Pessoa:Filme Um Copo de Cólera ;Evento: ;Lugar: ;Chave:Coluna de Vídeo ;Data:02.06.00 }]
Divulgação
Julia Lemmertz e Alexandre Borges vivem uma relação intensa
Um Copo de Cólera
Baseado no romance de Raduan Nassar, Um Copo de Cólera, dirigido por Aluízio Abranches, é um filme cheio de imperfeições, incongruências e escorregões, mas extremamente vigoroso. O maior risco de Abranches foi a manutenção da prosódia de Raduan Nassar. O vocabulário muito próprio do autor vai direto para o texto a ser dito pelos atores às vezes quase declamado sem qualquer adaptação ou suavização. Isso significa um desafio em especial para a dupla de atores: Julia Lemmertz e Alexandre Borges, casados na vida real.
Os dois interpretam um casal sem nome. Ele vive isolado numa chácara e ela é uma mulher moderna, uma jornalista. A relação entre eles é forte, principalmente no quesito sexo. O filme começa com uma cena longa e extremamente ousada de sexo explícito. Mas depois vem a briga que chega à mesma proporção de intensidade. A trilha sonora de André Abujamra é um espetacular à parte. Um filme arrastado e um pouco cansativo, mas cheio de vigor. Lançamento da Warner. Duração: 75 minutos.
[Retr-Foto:CD6 Z 2 {Grade:Cultura ;Pessoa:Filme Tiradentes ;Evento: ;Lugar: ;Chave:Coluna de Vídeo ;Data:02.06.00 }]
Divulgação
Filme reúne um bom elenco, mas roteiro e direção deixam a desejar
Tiradentes
Líder ou reles participante? Revolucionário ou agitador? Herói ou laranja? Nesta nova versão do principal personagem da Inconfidência Mineira, o diretor Oswaldo Caldeira optou pelo lado épico da vida de Tiradentes, retratando a história com muita ação e ficção. O filme tem momentos de western e thriller, fazendo uma leitura humana da vida de um dos principais ícones da revolta contra o domínio português.
Despreocupado com a verossimilhaça e o rigor histórico, o diretor mostra Tiradentes como um homem valente e de bem com a vida, que gostava de tabernas e bordéis. O filme tem uma competente reconstituição de época e bom elenco, mas não chega a impressionar. É apenas mais uma fita sobre o herói do Brasil-Colônia. No elenco estão Humberto Martins, como Tiradentes; Giulia Gam, Paulo Autran, Julia Lemmertz, Adriana Esteves e Marco Ricca. Lançamento da Warner. Duração: 125 minutos.


