'Troca de Rainhas': ambientação de época tem a mesma importância do roteiro no filme de Marc Dugain
'Troca de Rainhas': ambientação de época tem a mesma importância do roteiro no filme de Marc Dugain | Foto: Divulgação


Há três séculos, mais exatamente em 1721, a Europa vive um de seus muitos conflitos entre nações. As guerras entre França e Espanha estão destroçando e exaurindo ambos os países. É urgente uma trégua, um período de pacificação. Apaziguar os ânimos através de matrimônios entre os dois reinos consolidaria a estabilidade entre as duas maiores potencias europeias. Com esta intenção em vista, fica decidido que a princesa-menina Mariana Victoria de Bourbon, filha do rei de Espanha, Felipe V, deverá se casar com o também muito jovem rei de França, Luis XV.
Ao mesmo tempo, Luisa Isabel de Orleans, filha de Felipe, regente de França, é prometida ao herdeiro da coroa espanhola, príncipe Luis. Que ninguém duvide: ambos os enlaces serão complicados.

Esta é a súmula de "Troca de Rainhas", co-produção franco-belga de 2018 em estreia hoje em Londrina. É o mais recente filme do realizador e escritor francês Marc Dugain, que nesta sua quarta obra como diretor leva ao cinema a novela da escritora e historiadora Chantal Thomas, centrada em lutas pelo poder no século XVIII. Celebrando uma solenidade de acordo com os tempos de fausto, a cerimônia da troca de prometidos ocorre na ilha dos Faisões, na fronteira entre os reinos francês e espanhol.

Se, na aparência, o evento não tem um interesse particular, a ambiguidade da situação está relacionada a certas peculiaridades que o roteiro se encarrega de destacar: primeiro, a infanta espanhola é uma menina de apenas quatro anos, e Luis XV, com onze anos, não tem interesse em selar o acordo , pois ainda está em processo de assimilar sua situação pessoal (e solitária); e em segundo lugar, Luisa Isabel de Orleans, filha de Felipe, é uma adolescente rebelde que, acabando de chegar à Espanha, boicota o combinado e coloca em risco o plano de seu pai, que já não é lá tão brilhante.

Por se tratar de um filme que se desenrola primordialmente nos amplos e barrocos espaços palacianos, a ambientação de época (direção de arte, vestuário) se converte em elemento que o diretor Marc Dugain coloca no mesmo nível de importância que o roteiro, configurando uma narrativa que se baseia na dissecação de um modo de vida e de um exercício de poder em evidente decadência moral, o que de certa forma pressupõe a mudança de paradigma que ocorreu durante a Revolução Francesa.

O filme é bom exemplo de recriação histórica, recuperando um episódio tão controvertido quanto crítico. O trabalho do diretor Dugain é delicado, de corte acadêmico e equilibrado, com direção respeitosa e realista, transmitindo muito às claras os aborrecimentos e tensões da vida em palácio. Com evidente interesse em respeitar, dentro do possível, os fatos históricos tal como aconteceram, o diretor dá grande importância aos diálogos, que resultam em efetivo veículo para transmitir não apenas informações pontuais da conjuntura política e dos bastidores da disputa pelo poder, mas também para destacar os estados de animo dos personagens.

E especialmente para por à descoberto uma série de contradições que começam a vir à superfície no decorrer da narrativa. Neste sentido, o que "Troca de Rainhas" pretende é chamar atenção para detalhes ignorados pelos livros de História, mergulhando na psicologia humana e em situações particulares e mundanas que refletem mais de perto a mentalidade da nobreza do século XVIII. Exemplo deste enfoque revisionista é a sutil caracterização do muito jovem Luis XV, encurralado pela contradição de ter que dar ordens e mostrar autoridade enquanto luta para sufocar seus desejos de participar da vida normal, inclusive com o despertar sua sexualidade.

Marc Dugain transmite bem a obsessão das monarquias por perpetuar-se, mesmo que isto custe fracassos e infelicidade. E traça um firme retrato dos personagens - quem leva a pior nessa galeria é um atormentado rei de Espanha (Lambert Wilson). Mesquinharias e imoralidades típicas da corte recebem atenção, embora sem desvios de certo estilo formal. E aqui voltamos ao ponto de maior interesse: mesmo trilhando na aparência os caminhos do drama histórico mais sóbrio, "Troca de Rainhas" explora, direta ou metaforicamente, um universo íntimo muito sugestivo do qual emanam misérias, contradições e medos profundamente arraigados na psicologia individual e social de uma classe acomodada e um sistema de poder prestes a ser desmantelado.

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