O excitamento do poder
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terça-feira, 31 de dezembro de 1996
Gilles Lapouge Agência Estado 
PARIS - William Shakespeare escreveu Marco Antônio e Cleópatra. A partir da décima linha, o dramaturgo inglês estabelece sua tragédia no ponto exato onde se cruzam, em Alexandria, o jogo do poder e o jogo do Eros: um dos soldados de Marco Antônio, chamado Filon, compara o general romano a Marte em sua armadura, mas acrescenta imediatamente: Neste louco, neste histrião das prostitutas (Marco Antônio) reconheçam um dos três pilares do mundo (a strumpets fool , diz Shakespeare a respeito de Marco Antônio).
Shakespeare se insere na tradição latina. Para Tito Lívio, a rainha do Egito era tão sensual que se prostituia com muita frequência (Tantae libidinis fuit ut saepe prostituerit ). Propércio afirmou: Uma mulher, consumida pela devassidão, rainha meretriz do incestuoso Canopo. E Plinio, o Velho, chama também Cleópatra de regina meretrix (rainha meretriz). (Um eco estranho de Plínio, o Velho, ressoará 18 séculos mais tarde, quando a filha do rei francês Luis XV ridicularizaria Madame de Pompadour com o apelido de a prostituta do rei).
Todos esses julgamentos são malévolos. Sem dúvida, Cleópatra era uma mulher muito livre e desenvolta, mas, longe de ser uma prostituta, nasceu na púrpura, de berço nobre. Seu pai Latyros, embora apelidado de palhaço, tomou o poder depois de assassinar Ptolomeu XI. Instalado no trono, Latyros casou-se com sua irmã Cleópatra V, chamada de a gozadora. Desta união incestuosa (não há nada de sacrílego neste incesto, pois esta era a regra entre os Lagidas de Alexandria) nasceu a grande Cleópatra, filha portanto do palhaço e da gozadora, mas não uma meretriz.
Shakespeare quis marcar Cleópatra a ferro em brasa como uma meretriz porque sua peça se baseia nas relações entre o poder e o Eros. Existem inúmeros exemplos deste entrelaçamento entre sexo e realeza. Não podemos deixar de apresentar sucintamente alguns deles.
Exemplos Uma das maiores imperatrizes de Bizâncio, Teodora (inicio do século VI), filha de um guarda de ursos, amante e mais tarde esposa de Justiniano, era uma verdadeira prostituta, tão fascinada pelo corpo do Imperador quanto pelo seu trono. Enérgica, ela se imiscuia em todos os assuntos de Bizâncio. Restaurou a coragem de seu marido quando este estava perdendo o ânimo: em 532, Justiniano estava a ponto de ceder perante a revolta de Nika. Teodora o espicaçou com uma palavra admirável, gritando-lhe: A púrpura é uma bela mortalha. Justiniano então se reanimou.
(Em Bizâncio, as mulheres eram ativas e destemidas: alguns anos antes, Eudóxia, esposa do imperador Arcádio, mandou para o exílio nada mais nada menos que o patriarca de Constantinopla, o grande teólogo São João Crisóstomo!)
Para continuar na Antiguidade, cumpre evocar a ânsia de reinar da mãe de Nero, Agripina II, ambiciosa delirante, que provavelmente fez envenenar seu marido Cláudio e também Britanico, filho de Cláudio, a fim de dar o Império a seu filho Nero, isto é, a si própria. No ano 54, quando Nero se tornou imperador, Agripina se transformou de fato na senhora do mundo. Mas isso não lhe valeu de nada porque Nero, exasperado, mandou matar sua mãe Agripina no ano 59.
Observemos que esses casais demoníacos, ligados ao mesmo tempo pelo sexo e pelo gosto mórbido do trono, são comuns no Alto Império Romano. Cláudio - o imperador assassinado por Agripina - já tinha praticado anteriormente uma repetição geral dessas torpezas: casado em primeiras núpcias com Messalina, foi tão atormentado pela luxúria inesgotável desta mulher (à noite, Messalina se misturava às prostitutas nas tavernas de Roma) que se tornou seu escravo, até o dia em que, exasperado por ver que o poder lhe havia sido roubado por sua mulher e seus amantes Narciso e Pallas, mandou executá-la e casou-se com Agripina (que por sua vez irá matá-lo).
Mais exemplos Nem todas as mulheres devoradas pela ambição do poder são demônios ou vampiros. Houve mulheres benéficas: No ano 180 de nossa era, surgiu um novo imperador romano, Cômodo: um Hércules grosseiro, beberrão e sanguinário. Cômodo tinha uma amante, Márcia, mulher ardente e entusiasta, que exercia uma influência tão grande sobre o imperador que o obrigou a multiplicar as anistias em favor dos cristãos, embora Cômodo fosse um inimigo frenético do Cristianismo. Ao descobrir porém que Cômodo não estava concedendo o perdão com a desejada rapidez, a excelente Márcia ordenou que seus servos o estrangulassem durante a noite.
Na Rússia, no século XVIII, Pedro, o Grande, acabara de morrer. Segundo o historiador Herzen, houve então um período estranho: o trono imperial era parecido com o leito de Cleópatra. Durante a noite, um bando de oligarcas, de estrangeiros, de brutamontes, de efeminados, trazia um desconhecido, um menino, um alemão, e o colocava sobre o trono...
Em 1740, Isabel, filha de Pedro, o Grande, assumiu o poder. Mística, depravada, ela reinava por meio de seus inúmeros amantes, Schuvalov, Razumovski...
Mais tarde, outra mulher, Catarina, casou-se em 1745 com o futuro czar, Pedro III. Mas, logo depois que Pedro III subiu ao trono, em 1762, Catarina convenceu seu amante, Gregori Orlov, a assassiná-lo. No trono, Catarina tornou-se um terror. Tudo o que pudesse fazer sombra ao seu poder absoluto era odiado de morte, como por exemplo seu filho Paulo I, que mais tarde seria assassinado pelo último amante de Catarina. Outro personagem, Ivan IV, sobrinho de Pedro, o Grande, poderia constituir uma ameaça para Catarina II. Foi massacrado por ordem da imperatriz na fortaleza de Schusselburg em 1764. Mulher muito inteligente, monarca esclarecida, amiga de Voltaire e de Diderot, Catarina foi, entretanto, uma grande imperatriz. Mas seu corpo continuaria insaciável, não obstante o assédio infernal de seus amantes.
Apenas mais um último exemplo, retirado da série de príncipes sanguinários que alimentam o teatro de Shakespeare: Lady Macbeth, cujo único sonho era o de tomar o poder através de seu fraco marido Macbeth, obrigado por ela a matar o bom rei da Escócia, Duncan. O corvo grasna, saudando a entrada fatal de Duncan sob as ameias de meu castelo - diz Lady Macbeth, contorcendo-se de prazer. Acorrei, espíritos que velais sobre os pensamentos de morte. Retirai meu sexo e, desde o crânio até o dedo do pé, fazei-me transbordar da mais atroz crueldade! Engrossai meu sangue! Fechai em mim toda passagem à compaixão! (Lady Macbeth constitui uma variedade especial destas princesas eróticas. Ela poupava o clímax do sexo, interrompendo seu impulso: o que a fazia sentir prazer diretamente era o trono, que a precipitava num delírio sexual tão grande que nem mesmo tinha necessidade de consumar o impulso...).
Algumas observações Em primeiro lugar, esta aliança entre o poder e o sexo desemboca naturalmente no homicídio. Mas, quando a pessoa consumida pela ambição e pelos ardores do sexo não mata, então se suicida, como é o caso de Cleópatra. Será preciso espantar-se com isso? A lição de Sigmund Freud sobre este ponto continua irrefutável: o sexo e a morte, Eros e Thanatos, são duas efígies de um mesmo brasão.
A segunda observação é que todos os exemplos citados se referem a poderes despóticos, tirânicos, absolutos. Certamente, percebemos certa erotização do poder nas democracias, mas temos de admitir que Hillary Clinton, muito embora bem dotada, não chega aos pés de Cleópatra, Márcia ou Catarina, a Grande.
Podemos compreender esta ligação entre o poder absoluto e o erotismo. Na democracia, o poder não depende da sedução ou da posse de um corpo por outro corpo, mas de eleições legislativas ou presidenciais. Com certeza, deitar-se com um presidente pode ter certo charme e trazer alguns benefícios, mas medíocres e provisórios. Em contrapartida, precisamente ao nível das eleições, o erotismo pode às vezes desempenhar um pequeno papel na democracia. A eleição de Kennedy é um exemplo de erotização eleitoral.
Por outro lado, o poder absoluto aguça mais o desejo. Em primeiro lugar, porque os benefícios da partilha de um poder despótico são gigantescos e duráveis. Além disso, como a tirania não conhece barreiras legais nem dispositivos constitucionais, a amante (ou o amante no caso das czarinas) que seduz o tirano pode elevar-se de repente acima de todos os príncipes e nobres. Ela se farta então com os inebriantes aromas do poder.
Mas isso não é tudo. Ao simples nível da excitação erótica, por estar envolto nos embaçados clarões da violência e da injustiça e ter a fronte iluminada pelo romantismo negro da arbitrariedade e da onipotência, em força de seu direito de vida e morte sobre seus súbditos, o déspota emite ondas sexuais mais irresistíveis do que o poderiam fazer as ministras mais formosas, ou a mais bela presidente. É triste dizer, mas monstros, como Marco Antônio e Pedro, o Grande, ou Isabel da Rússia, provocam mais impulsos, arrebatamento e paixão do que John Major, Alain Juppé ou mesmo Madame Margaret Thatcher.
Com certeza, lamentamos tudo isso do fundo do coração, mas como negar que o erotismo está ligado tanto ao horror quanto à ternura, tanto à lama quanto à doçura e está infestado por tantas pestilências sombrias? Sejamos sinceros: Se uma mulher recebesse uma proposta de ir para a cama com Gengis Khan, ou com Helmut Kohl, qual seria a sua escolha, na opinião de vocês?


