Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha2
A primeira constatação, ao final de ‘‘Fim de Caso’’ (veja a programação de cinema na página 5), é que se trata de um filme anacrônico. Não apenas porque trata de um tema tão eterno como a paixão, ou por ser um filme de época baseado em ‘‘The End of the Affair’’, a mais pessoal e íntima das novelas do católico convertido Graham Greene - que, virtudes estilísticas à parte, é em si um escritor anacrônico, quer pelos conflitos que coloca, quer pela maneira de discutí-los e resolvê-los, tão distante, tão oposta ao descompromisso pós-moderno. Mas não deixa de ser um riquíssimo filão enquanto leitura, um brilhante expoente de uma forma de entender a vida e um mundo já em desuso, mas do qual viemos.
Essa é justamente a leitura que fez Neil Jordan. Uma leitura e um filme anacrônicos na mesma medida. Bom acrescentar: inevitável e felizmente ancrônicos.
A ação se passa inteiramente em Londres e arredores, durante a Segunda Guerra Mundial. A atmosfera impressiona: bombardeios, imagens noturnas, quase sempre sob chuva. Um certo escritor, o agnóstico Maurice Bendrix - personagem acentuadamente autobiográfico - mantém um romance com Sarah Miles, casada, e mal, com alguém importante. Os dois homens já se conhecem, e o marido confia ao outro a infelicidade. Revela inclusive que até pensou em contratar um detetive para descobrir com quem sua mulher o engana. Mas logo, quando Sarah deixa o amante por razões que não convém revelar, os papéis se invertem e é este quem procura os serviços de um investigador particular.
Jordan trabalha bem o clima romântico, as cenas de sexo - em quantidade e explicitude bem além dos limites auto-impostos por Greene na novela - a guerra nos bastidores obviamente como sugestão alegórica do conflito atormentando as três pontas do triângulo, alguns interessantes personagens periféricos e até a presença do elemento milagroso, estranho à índole da história mas não em um escritor que fez da fé e dos conflitos morais temas de cabeceira.
Há algo mais a destacar no filme, e não menos importante. Observar e desfrutar as composições de Ralph Fiennes, Stephen Rea e Julianne Moore, respectivamente o escritor e o casal. Candidata ao Oscar, Julianne assistiu Hillary Swank levar a estatueta por ‘‘Meninos Não Choram’’. Mas é questão de tempo. A atriz, de 39 anos, vem lentamente em processo de maturação, e já deveria ter sido lembrada pela atuação em ‘‘Cenas da Vida’’, de Robert Altman, onde faz uma longa, preciosa cena em que discute dentro de casa com Mattew Modine sobre fidelidade. A notar que Julianne, irrepreensível sob todos os aspectos, contracena nua da cintura para baixo. Seu atual trabalho, iniciado há um semana, está em ‘‘Unbreakeable’’. Ela está ao lado de Bruce Willis, sob as ordens do diretor M. Night Shyamalan, no filme ‘‘O Sexto Sentido’’.

mockup