O eterno retorno inspira balé
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quarta-feira, 05 de junho de 2002
Francelino França<br>Reportagem Local 
Depois de conquistar um público estimado em 22 mil pessoas em 2001 com o espetáculo Nunca e cruzar nove estados brasileiros, o Ballet de Londrina coloca em cena mais um espetáculo. Eternamente, que estréia hoje, no Circo Funcart, é a segunda parte da trilogia em que o diretor Leonardo Ramos pretende discutir as facetas da condição humana. A parte que completa a tríade se chama Fome.
Logo depois da criação do balé Nunca, o coreógrafo Leonardo Ramos refletiu sobre a possibilidade de criar a trilogia. Em Nunca, o Ballet de Londrina discutiu a liberdade de dizer nunca mais, diante das adversidades. Esse grito de alerta tinha o poder transformador. Agora, numa perspectiva menos otimista, os intérpretes se questionam sobre o processo da condição básica do homem, que não se transforma mesmo diante do novo. É difícil sair do eixo. Mesmo quando se atinge o novo, em função da repetição da miséria humana, continua-se a idéia do eternamente, afirma Ramos.
Nesse novo trabalho, fragmentos de outras coreografias foram reaproveitados, incluindo a trilha sonora, com a assinatura de Marco Turetta. No processo de criação, o diretor convidou o elenco a buscar o ser humano aprisionado, cercado de si mesmo. Estou incomodado com o mundo do meu tempo, repetindo a história de bang bang, em que o homem se diverte cometendo atrocidades, diz Leonardo.
Eternamente é a antítese do que a companhia londrinense estava criando há nove anos. Achava que poderia resolver a cena com o movimento em si, avalia. Agora, num outro patamar, a coreografia foi elaborada no universo emocional dos intérpretes. Diferentemente de Nunca, o novo balé não possui conotação erótica-sexual. A idéia básica retrata o homem preso entre quatro paredes, que luta momentaneamente para sair, mas desiste. Esse balé surge como um mecanismo de alerta, reitera.
Leonardo Ramos enfrenta uma fase de visível desencanto em relação às mudanças na política cultural. Não muda nada. Estou descrédulo. Mesmo tendo pessoas novas, as dificuldades de mudar existem. Uso o meu desalento, a desesperança como material para criação, revela. Os movimentos repetitivos de ir e vir reforçam o estado prisional em que se encontram. Eternamente pode ser considerado o espetáculo mais denso do Ballet de Londrina.
Na perspectiva do eterno retorno, do círculo vicioso, o coreógrafo elegeu a memória como uma das matérias para sua produção. Essa experiência aproximou o bailarino do papel de intérprete e criador. De uma certa forma, a dança apresentada é testemunhal. Os intérpretes buscaram seus subsídios emocionais para costurar o espetáculo. Numa das cenas em que esse lado intérprete é mais exigido, eles jogam roupas dentro de malas e das roupas eles resgatam lembranças.
A idéia é cumulação de informações. Para isso, o cenário assinado por Regina Melo insere no mundo conturbado colcha de retalhos feita com chapas de raio-x e tomografias, iluminadas na parte posterior. Um praticável sobre rodas possui papel fundamental na coreografia. Eternamente tem 38 minutos e a primeira parte da apresentação da temporada traz o balé Nunca em versão mais enxuta.
Depois da temporada londrinense, a companhia segue para Toledo, Cascavel e Ponta Grossa. Em agosto, será a vez do Rio de Janeiro e Belo Horizonte. A tradicional turnê por sete capitais do nordeste está praticamente descartada, segundo informa Leonardo Ramos, porque os recursos dos programas Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Encena e Conta Cultura ainda não foram viabilizados. Ele considera seu elenco uma legião de sobreviventes. Os quatro primeiros meses do ano, segundo desabafou o diretor do Ballet de Londrina, foram os piores em nove anos de existência da companhia, mais uma vez vitimada pela falta de repasse de recursos para a manutenção básica.
Eternamente, com a Companhia Ballet de Londrina. Direção: Leonardo Ramos. Assistência de direção: Ana Maria Aromatário. Estréia: hoje, às 21 horas. Prossegue até 16 de junho, de sexta a domingo, sempre às 21 horas, no Circo Funcart (Rua Souza Naves, 2380). Duração: 1h15. Classificação etária: 16 anos. Ingressos: R$ 6,00 e R$ 3,00 (estudantes, maiores de 65 anos e contribuintes da Funcart). Patrocínio: Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Incentivadores: Caixa Econômica e Interstation.


