O eterno retorno do TROPICALISMO
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de outubro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
O tropicalismo ainda dá o que falar. Mais uma temporada revisionista do movimento parece se manifestar, desta vez sem qualquer vínculo com datas comemorativas ou histéricas manifestações egocêntricas de seus protagonistas.
Três livros anunciam a exumação do cadáver, o que vem restaurar sua original vocação para a polêmica. Dois deles já saltaram das gráficas: Tropicalismo Decadência Bonita do Samba (Boitempo Editorial), de Pedro Alexandre Sanches; e A Forma da Festa Tropicalismo: A Explosão e seus Estilhaços (Editora UNB), coletânea de textos organizada por Sylvia Helena Cyntrão.
O terceiro volume foi apenas anunciado pelo autor, o designer gráfico Rogério Duarte, responsável pelas capas dos principais discos lançados pelo movimento. O livro, prometeu ele, vai contar o outro lado da história destacando seu papel e de outros personagens caso do artista plástico Hélio Oiticica, do poeta Torquato Neto e do escritor José Agrippino de Paula na criação da coisa toda em detrimento da tantas vezes repetida glorificação de Caetano Veloso e Gilberto Gil.
A importância da dupla de compositores baianos, contudo, não é minimizada em A Forma da Festa. O livro reúne transcrições de uma série de palestras e debates realizada durante um seminário na Universidade de Brasília, em outubro em 1997, em comemoração aos trinta anos da tropicália. Inclui ainda um longo texto introdutório da professora de teoria literária, Hilda O. H. Lontra, que ressalta a qualidade das letras de Gil e Caetano.
Se o tropicalismo está extinto no tempo, não está excluído na história da vanguarda poética brasileira conclui ela. Os enfoques dos depoimentos compilados variam da contextualização a qual o movimento estava inserido a seus desdobramentos histórico-culturais. O jornalista, escritor e deputado federal Fernando Gabeira aproveita sua intervenção para um ajuste de contas, quase um pedido de desculpas histórico (segundo suas palavras), por ter subestimado a tropicália durante os anos em que enfrentou a ditadura militar atuando na luta armada.
O que acontece muitas vezes salienta ele é que a estética diz coisas políticas muito mais avançadas do que os próprios políticos. E você precisa passar dez, 20, 30 anos para absorvê-la. Hoje, por exemplo, eu me identifico e me inspiro talvez muito mais nas propostas do tropicalismo do que nas propostas que nós apresentávamos naquela época. Além de Gabeira, o livro traz contribuições de gente como o compositor e escritor Jorge Mautner, o cineasta Rogério Sganzerla e o estudioso dos anos 60 Luis Carlos Maciel.
O maestro Júlio Medaglia, autor do célebre arranjo da canção Tropicália e também presente no livro, faz um balanço da música popular brasileira das quatro últimas décadas. Lamenta o rebaixamento estético verificado no período tomado segundo ele por um bolerismo, um mar verborrágico, melodoloroso interminável e revela frustração diante da acomodação dos heróis tropicalistas.
A gente conclui ele tinha a impressão que esse pessoal, os líderes do tropicalismo de fato, iam ter o mesmo compromisso com a cultura brasileira que eles tiveram quando nos anos 60 aconteceu aquela loucura toda. E não. Foram todos fazer as suas carreiras individuais e deixou-se a música popular brasileira correr solta. O que aconteceu é que chegamos aos dias de hoje numa mediocridade que toma conta absoluta de toda grande indústria cultural brasileira.
Menos ligeiro na exposição, mas também disposto a provocar os ícones máximos da baianidade musical, o jornalista e crítico Pedro Alexandre Sanches investiga o legado tropicalista montando um arrazoado exaustivo de 360 páginas. Tropicalismo Decadência Bonita do Samba nasceu de seu trabalho de conclusão de curso de jornalismo na Escola de Comunicação e Artes da USP.
O autor defende que o tropicalismo foi a última pá de cal lançada sobre o caixão do já agonizante samba, então já apunhalado pela bossa nova. O sepultamento se faria com a nova ordem musical que se instalava a partir de 1967 misturando o bumba-meu-boi com procedimentos da vanguarda erudita, slogans anarquistas com a poesia concreta, o rock com a cafonice numa colagem de fragmentos daquilo que o poeta Décio Pignatari chamou de geléia geral brasileira.
Os tropicalistas, Caetano à frente escreve Sanches chegavam não para reatar a linha evolutiva da música popular como ele mesmo gostou de propagar à época e, depois, para sempre , mas para encaminhá-la a outra e diversa direção, mesmo que derrubando o que aparecesse pelo caminho. O novo projeto tiraria do samba e dos demais gêneros tradicionais o cetro de protagonista da música popular.
O movimento corresponderia no plano musical ao surgimento no Brasil da sociedade pós-moderna, cuja manifestação estética inaugural seria o filme Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, que marcaria a imposição de uma forma narrativa caótica e fragmentária. Sanches examina as discografias de Caetano Veloso e Gilberto Gil, pinçando faixa a faixa, verso a verso, o que considera legitimação de sua tese.
Afinal, naqueles anos, foram os dois compositores os que mais vertiginosamente aderiram à cultura e ao consumo de massas no país. Como contraponto, o autor analisa as obras de Chico Buarque e Paulinho da Viola, que se oporiam à nova ordem como pólos de resistência preservando ainda os laços com a tradição. Seriam espécies em vias de extinção, dos cultores da razão a qualquer custo.
No meio termo, localizado entre o universalismo pop dos tropicalistas e o humanismo da velha guarda, ele destaca a figura de Jorge Ben (posteriormente rebatizado Benjor) cujas composições também são esmiuçadas. Obviamente, as críticas dirigem-se com mais veemência a Caetano e Gil, o primeiro definido maldosamente como a Carla Perez de pop-intelectuais e/ou intelectualóides nacionais, que seduz mentes rebolando o cérebro com a mesma voracidade e superficialiadade que a outra utiliza para, rebolando as nádegas, seduzir baixos-ventres.
Para o autor, a posição hegemônica conquistada por ambos na cultura brasileira gerou um instinto de perpetuação minando a aparição do novo. A intimidação ronda a família MPB, que mais covarde que seus mentores, vai se abstendo de se pronunciar aí, Caetano e Gil são velhos senhores em seus papéis bem escalados de patriarcas coronelizados, ACMs da música popular baiana escreve ele no último capítulo.
Antes, na abertura do volume, pergunta até que ponto os ídolos tropicalistas meus, nossos, de todos, no positivo ou no negativo, encontram-se não numa espiral feliz de reafirmação de talento, saber, inteligência e preponderância, mas num processo corrosivo de eternização, de degradação. O que você acha? A polêmica, pelo jeito, mais uma vez está solta.


