Para abordar a morte e a memória, Yoko Ogawa abandona o regionalismo e trata o assunto através da universalização da literatura
Para abordar a morte e a memória, Yoko Ogawa abandona o regionalismo e trata o assunto através da universalização da literatura | Foto: Fotos: Divulgação



A morte sempre apaga a memória da cabeça dos mortos. Suas lembranças simplesmente desaparecem. Viram pó sob sete palmos de terra.
As lembranças dos mortos permanecem apenas na memória dos vivos. Trocam de lugar. A memória dos falecidos passa a existir na cabeça dos vivos.
Essa parece ser uma lógica universal: a lembrança dos mortos sobrevive apenas na memória dos vivos. Algo como os elos de uma corrente que se estende através do tempo.
A escritora japonesa Yoko Ogawa realiza uma emotiva abordagem dessa lógica em "O Museu do Silêncio", romance que acaba de ser lançado pela editora Estação Liberdade. A obra apresenta o resguardo da lembrança da existência das pessoas como algo próximo do delírio e da contravenção.
"O Museu do Silêncio" é o segundo livro da autora lançado no Brasil. O primeiro, "Hotel Iris", foi publicado em 2011 pela editora Leya. Nascida em 1962 na cidade de Okayama, Yoko Ogawa é uma das escritoras cultuadas da literatura japonesa contemporânea. Nos últimos anos suas histórias caíram no gosto dos leitores da Europa e Estados Unidos se tornando uma revelação das letras orientais.
A obra traz a história de um museólogo que aceita a missão de organizar um museu particular num pequeno vilarejo. A proposta surge de uma rica idosa que deseja criar um museu com todos os abjetos que acumulou ao longo da vida, desde quando tinha onze anos de idade.
Quando começa o trabalho, o museólogo descobre que não deve construir num museu convencional, mas em algo nunca visto. Isso porque todas as peças que a velha acumulou são lembranças dos habitantes do vilarejo que morreram ao longo dos últimos 80 anos.
Os objetos guardados pela idosa seguem um princípio ético rígido. Essa é sua grande obra. Cada objeto deve representar a verdadeira lembrança do falecido. E mais, devem ser conseguidos através do roubo, nunca através da doação. O objeto roubado deve conter a essência da existência daquele que deixou de existir.
A tesoura de poda, por exemplo, se revela o objeto síntese da lembrança de um velho jardineiro. Igualmente o bisturi de um médico que realizava cirurgias proibidas de correção grandes orelhas. Ou o DIU (dispositivo intrauterino) de uma prostituta morta num incêndio criminoso.
A tese da velha é a de que um único objeto possui a capacidade de resumir a memória de toda a existência uma pessoa na Terra. E definir esse objeto, seja ele qual for, torna-se a capacidade suprema de síntese.
Ao longo da narrativa, o museólogo recebe uma desafiadora tarefa além de organizar o museu. Como a senhora, com dificuldade de locomoção pela idade avançada, não possui mais condição de roubar os objetos dos mortos, ele deve assumir o trabalho.
Em sua narrativa, Yoko Ogawa consegue converter e realidade em subjetividade. Com toques de sutiliza e sensibilidade, transforma a complexidade de alguns assuntos em algo muito simples e legível para qualquer tipo de leitor. A história narrada não está interessada na representação coletiva do mundo, mas na representação individual e íntima de cada existência no mundo.
Em "O Museu do Silêncio", a autora não apresenta uma única palavra que remete ao Japão ou à cultura japonesa. Tudo acontece numa região geográfica indefinida, num tempo incerto e com personagens sem nomes. Um tipo de narrativa que poderia, simbolicamente, remeter a qualquer lugar do mundo. Yoko Ogawa deixa de lado o regionalismo para indicar a universalização literária.
Em sua voz como narrador, o museólogo oculta uma série de intimidades de sua existência que, lentamente, aparecem no decorrer do entendimento de seu trabalho de estruturar o museu. E essa é a grande sacada de Yoko Ogawa: fazer do personagem narrador uma demonstração do funcionamento humano das lembranças, principalmente diante das lembranças as pessoas próximas que morreram. Ao ocultar suas memórias ao museu, se tornar a pessoa mais indicada para erguer tal obra.
A constatação pode ser simples: os mortos estão vivos não apenas na lembrança dos vivos, mas nos objeto mais significativos de suas vidas. Nada mais do que a velha e inabalável construção da subjetividade. Um tipo de espaço vago que só o silêncio pode ocupar.
A morte sempre apaga a memória da cabeça dos mortos. Mas as lembranças dos falecidos não permanecem apenas na memória dos vivos. Elas não apenas trocam de lugar, ficam residindo em objetos para os quais a cabeça dos vivos ergue legiões de significados.

Imagem ilustrativa da imagem O eterno museu dos mortos



Serviço:
"O Museu do Silêncio"
Autor – Yoko Ogawa
Editora – Estação Liberdade
Tradução – Rita Kohl
Páginas – 304
Quanto – R$ 49

Sempre que alguém da vila morre, recolho um único objeto relacionado àquela pessoa. É uma vila pequena, como você sabe, então não é todo dia que morre alguém. Mas não é fácil reunir esses objetos, algo que descobri na prática. Talvez fosse pesado demais para uma criança de onze anos. Mas, assim mesmo, consegui fazê-lo por muitas décadas. A minha maior dificuldade é porque não me contento com uma recordação qualquer. Nunca me contentei com algo fácil, uma roupa que a pessoa vestiu uma ou duas vezes, uma joia que viveu fechada num armário, uns óculos feitos três dias antes de morrer. O que eu quero são coisas que guardam, da forma mais vívida e fiel possível, a prova de que aqueles corpos realmente existiram, entende? Algo sem que os anos acumulados ao longo da vida desmoronariam desde a base, algo que possa impedir que a morte seja completa. Não são lembrancinhas sentimentais, não tem nada a ver com isso. E claro que o valor financeiro também está fora de questão. (Fragmento de "O Museu do Silêncio", de Yoko Ogawa)
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