O eterno fascínio da magia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de abril de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Por alguma razão - ou várias, o que é bem mais provável -, de dois anos para cá o cinema produziu trabalhos sobre a arte do ilusionismo. Hugh Jackman e Christian Bale eram mágicos rivais em ''O Grande Truque'', ambos possuídos por ilimitada ânsia na busca de reconhecimento e poder. Edward Norton, em ''O Ilusionista'', foi o mestre prestidigitador com aparentes poderes sobrenaturais que se atreveu a ser o rival romântico de um arrogante aristocrata. E agora Guy Pearce, na pele do personagem real Harry Houdini, a celebridade mundial que no início do século 20 se especializou na arte do escapismo - escapismo que, afinal, está na essência mesma deste ''Atos que Desafiam a Morte''. Literal e figurativamente.
Os três filmes são de época: ''O Grande Truque'' se passa na Inglaterra do século 19, ''O Ilusionista'' na Viena de 1900 e ''Atos que Desafiam a Morte'' está ambientado na Escócia dos anos 1920. Os três títulos giram em torno de fraude e revelação, conhecimento e falsas pistas. Falam da confusão sobre o que é aparência e o que é realidade. E todos os três têm a ver com alguma coisa situada entre verdade e ilusão. Material de eterno interesse, como se sabe.
De qualquer maneira, a magia está no centro deste curioso ''Atos que Desafiam a Morte'', em lançamento a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2). A magia tanto pode ser o repertório de truques e a agilidade da performance do aclamado escapista Houdini, aliás o húngaro Ehrich Weiss, como o mistério do mundo físico em comunicação com o ''outro lado''. Ou pode simplesmente ser a magia do amor - o que, com bastante frequência, é o maior enigma de todos.
Dirigido pela australiana Gillian Anderson, o filme está ambientado em 1926, quando Houdini está no auge da fama. Celebrado ao redor do mundo por seus incríveis feitos (é especialista em se atar a correntes dentro de malas, baús, fora da água/submerso e a se libertar sem qualquer recurso aparente a não ser a...magia), ele tem multidões de fãs. Mas Houdini é também uma alma solitária e ferida. Torturado pela morte da mãe, está sempre às voltas com espíritas e ocultistas, gente que acredita com poderes para fazer contato com falecida. Suas viagens o levam a Edimburgo, onde encontra Mary McGarvie (Catherine Zeta-Jones) e a filha de 12 anos, Benji (Saoirse Ronan).
Em dificuldades financeiras, as duas tentam sobreviver nas ruas da capital escocesa, e a única fonte de recursos de ambas é um falso show mediúnico. Quando Houdini anuncia um prêmio de 10 mil dólares a quem revelar as últimas palavras de sua mãe à morte, Mary e Benji armam uma teia que envolve amor, paixão, trapaça e intriga em doses mais ou menos equivalentes.
Há idéias interessantes que percorrem a narrativa - uma delas é a de que as pessoas que patrocinam shows de magia querem tanto ser enganadas que de bom grado, pronta e facilmente, conspiram para encobrir o truque. Outra seria um sub-tema de implicação psicológica - a idéia de que Houdini estaria sublimando o amor ao se atar a cordas e correntes. Com a palavra terapeutas de plantão.
De qualquer forma, até para os saudosistas intransigentes de Tony Curtis e Janet Leigh em ''Houdini, O Homem Miraculoso'' (1953), esta versão corrente pode ser vista sem maiores sustos. Vale rever aqui a beleza de Zeta Jones, a interpretação muscular de Pearce e este bravo novo talento de nome impronunciável, a charmosa Saoirse Ronan que desencadeia a tragédia em ''Desejo e Reparação''.


