O eterno clássico das esferas
A Divina Comédia, clássico universal de Dante Alighieri com mais de seis século de existência, está sendo relançada em edição bilíngüe
ReproduçãoUma das ilustrações que representam O Inferno: torturas e tonturas fincam suas lâminas em corpos e almasMarcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
Existem os clássicos e os clássicos dos clássicos, aquelas obras que o tempo não deixa que a poeira se acumule sobre elas. A Divina Comédia, do poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), é um exemplo delas. Escrita há mais de seis séculos, continua sendo apreciada como uma preciosidade da literatura universal.
Um exemplo disso está no lançamento de uma nova edição bilíngüe de A Divina Comédia pela Editora 34 com tradução Italo Eugenio Mauro. Dividida em três volumes acondicionados numa caixa, a obra foi lançada em dezembro último. Permaneceu nas livrarias por apenas quinze dias, esgotando-se. De lá para cá teve mais duas edições no período de seis meses, um fato pouco comum tratando-se de um obra de difícil leitura levando-se em conta a velocidade do mundo atual.
A Divina Comédia é um longo poema métrico (tercetos de decassílabos rimados de modo alternado e encadeado), escrito em italiano antigo carregado de simbologia. É constituído de 100 cantos divididos em três partes, o Inferno, o Purgatório e o Paraíso, algo em torno de 700 páginas que descrevem a peregrinação do autor aos três reinos além deste mundo. Durante a viagem encontrará uma legião de mortos, escritores clássicos, entidades mitológicas, familiares, ilustres conhecidos e desconhecidos.
A obra tem início com Dante, no meio de sua existência, consciente de ter se desviado do caminho correto, perdido numa alegórica floresta escura. Neste local encontra a figura do poeta latino Virgílio. Virgílio está ali, a pedido da alma pura de Beatriz (amor platônico da juventude de Dante), para lhe servir de guia em direção à salvação nos braços de Deus.
Para isso deverá percorrer os três territórios onde as almas humanas se recolhem após a morte, o inferno, o purgatório e o paraíso. Guiado pelas mãos de Virgílio, representando a razão humana, o autor percorrerá o Inferno e o Purgatório, cabendo a Beatriz a missão de guiá-lo através do Paraíso.
Antes de entrar no Inferno propriamente dito, Dante passa por um vestíbulo, chamado Limbo. Neste lugar não há castigo, mas também não existe a possibilidade de salvação. Abriga as almas falecidas antes das instituição do batismo e grandes personalidades que viveram no passado anterior ao aparecimento de Jesus.
O Inferno assume a forma de uma imensa cratera nas profundezas da Terra formada pela queda do corpo do anjo rebelde expulso do Paraíso, Lúcifer. Tal abertura se prolonga até o centro do globo terrestre, onde reside o próprio Lúcifer, o Rei do Inferno. Ao longo das paredes da cratera estão confinadas as almas dos penitentes ao castigo eterno. Estão divididos em quatro seções de suplícios, dependendo da gravidade das faltas cometidas em suas existências.
Dante separa os pecados e penas em quatros seções básicas: a incontinência, a violência e bestialidade, a fraude, a traição. Percorrendo os vários círculos do Inferno guiado por Virgílio, Dante encontra, entre outros, a figura de Ulisses, Homero, Horácio e Ovídio.
Após percorrer os horrores do Inferno, Dante ingressa no Purgatório. Este assume a forma de um alta montanha, situada no meio do mar, com vários patamares, sendo o último o paraíso terrestre. O primeiro patamar é habitado por almas que arrependeram-se de seus pecados só na hora da morte. Elas esperam pela escalada que os levará aos patamares superiores onde cumprirão penas diversas correspondente às faltas praticadas na Terra. Somente depois de purgados poderão ser admitidos no Paraíso. Os sete patamares superiores abrigarão os pecadores seguindo uma hierarquia: orgulhosos, invejosos, iracundos, preguiçosos, avaros e pródigos, gulosos e luxuriosos.
Ao deixar o Purgatório, Dante passa a ser guiado por Beatriz em sua viagem pelo Paraíso - que possui, assim como os outro dois territórios, uma hierarquia determinada. A cosmologia utilizada pelo escritor tem origem no pensamento de Ptolomeu e Aristóteles, onde a Terra é um globo fixo, imóvel, em torno do qual giram, hierarquicamente, outros corpos celestes.
O céu compreende oito divisões: o céu da Lua, de Mercúrio, de Vênus, do Sol, de Marte, de Júpiter, de Saturno e o céu das Estrelas Fixas. Cada um deles é habitado, em ordem crescente de acordo com o merecimento, por boas almas. Nas escalas mais elevadas do Paraíso (Empíreo, Rosa do Beatos e os Nove Círculos Angélicos), Dante passa a ser guiado pela figura de São Bernardo.
Embora Dante faça uso de uma requintada simbologia nas três partes da obra, parece inegável que o Inferno cause maior impacto nos leitores. Embora A Divina Comédia seja uma obra única dividida em três partes, uma delas, o Inferno é sempre mais lembrada que as demais. Isso deve-se ao fato de deter imagens mais fortes e perturbadoras que as outras.
São corpos e almas em que a dores, torturas e tonturas fincam suas lâminas sem descanso. Parece que no imaginário dos homens, seja em qualquer época, a representação do mal causa maior impacto que a representação do bem. As gravuras de Gustave Doré (1832 - 1883), que ilustram algumas populares edições do poema de Dante, alimentaram esse imaginário.
Isso fica evidente no próprio significado do verbete dantesco, existente em várias línguas, utilizado para designar cenas horríveis. O detalhe está no fato de que, embora A Divina Comédia, em toda sua extensão, caminhe para a luz, o nome de seu autor permaneceu associado às trevas, virou sinônimo de horror.
Os dados concretos sobre a vida de Dante Alighieri são restritos. Nasceu em 1265, numa família nobre em plena decadência. Mesmo assim foi educado com os melhores professores. Com 18 anos de idade, através de um contrato matrimonial, casou-se com Gemma Donati. O desejo de viver ao lado de seu amor platônico, Beatriz, passou a povoar apenas seus sonhos secretos. Iniciou carreira política em 1295, exercendo o cargo de governador de Florença.   Utilizando a prática política de não se render a ninguém, aliados ou adversário, foi envolvido uma falsa condenação de corrupção. Sem direito a defesa, recusou-se a cumprir a pena estipulada passando a viver no exílio, fugindo de cidade em cidade. A Divina Comédia foi escrita nos últimos 12 anos de sua vida. Antes, já havia publicado outras três obras, todas escritas em latim, De Monarchia, Vulgari Eloquentia e Epístolas.
Admirador de São Domingos e São Francisco de Assis, ao morrer em 1321, com 56 anos de idade, foi sepultado segundo seu desejo, vestido com um hábito franciscano.
O claro objetivo de Dante na criação de A Divina Comédia era tentar reformar moralmente um mundo afogado num mar de pecados. Diante da deterioração da própria Igreja, pregava uma volta aos verdadeiros princípios morais pautados na espiritualidade. Apontava o limitado lugar ocupado pelo homem no universo criado por Deus. Para ele, sem Deus, a humanidade estaria fadada a vagar perdida.
O grande drama da humanidade estaria na fraqueza do homem em não resistir à tentação dos bens e prazeres terrenos, tentação que o desviaria da salvação espiritual. A salvação só viria para aqueles que cultivassem as quatro virtudes cardeais (força, justiça, prudência e temperança) em conjunção com as três virtudes teológicas (fé, esperança e caridade).
Nas palavras de Carmelo Distante, que assina o prefácio da edição lançada pela Editora 34, A Divina Comédia é, em essência, um grande livro escrito para a salvação moral da humanidade, vale dizer libertá-la, com a ajuda e a assistência da graça de Deus, do pecado a que o poeta, cristão e crente absoluto, a via submetido. Dante se faz porta voz, tanto moral como cultural, do espírito da Idade Média ansiando não ao gozo dos bens terrenos ou temporais, mas àqueles celestiais, segundo a mensagem cristã, da qual se faz um convicto defensor.
Nesse sentido, pode se dizer que Dante é um poeta sacro, assim como seu contemporâneo também italiano Giovanni Boccaccio (1313 - 1375), autor do clássico Decameron, era um escritor profano.
A maioria dos estudiosos da obra de Dante afirma que só é possível entender completamente A Divina Comédia levando-se em conta o contexto moral e histórico em que foi escrita. Num claro reflexo do mundo medieval, está situada na conexão da cultura clássica com a cultura cristã. O próprio título do poema, originalmente apenas Comédia, foi alterado a no século 16.
Para o teórico Harold Bloom, o poema de A Divina Comédia é uma profecia, assume a função de um terceiro Testamento de maneira nenhuma subserviente ao Velho e ao Novo. Dante não reconhecia sua obra como ficção, mas como verdade atemporal.
A Divina Comédia (Volume I Inferno, Volume II Purgatório, Volume III Paraíso) de Dante Alighieri, Editora 34, tradução e notas de Italo Eugenio Mauro, prefácio de Carmelo Distante, edição bilíngüe, 690 páginas, R$ 49,00.

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