Criador de um universo visual próprio, único, Tim Burton é um dos raros diretores da atualidade que tem fãs realmente fiéis espalhados mundo afora. Ao mesmo tempo, goza de prestígio também entre a crítica de arte, como comprovou uma exposição organizada, no ano passado, pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, que apresentou mais de 700 peças usadas em seus filmes. Foi a maior mostra da instituição dedicada à obra de um cineasta.
Essa legião de admiradores só tende a aumentar com ''Alice no País das Maravilhas'', em cartaz nos Estados Unidos e na Europa desde março. A produção dos estúdios Disney já é o maior sucesso comercial de sua carreira e agora chega ao mercado latino, com estreia marcada para o próximo dia 23 no Brasil. Na esteira de ''Avatar'', o longa ainda tem como atrativo a versão em 3D digital - das 400 cópias distribuídas no País, 126 são no formato tridimensional.
Especialista em releituras, Burton tinha como desafio oferecer uma interpretação nova e interessante para uma obra que já ganhou mais de 20 versões só para o cinema. A solução foi condensar, num único script, dois livros de Lewis Carroll: ''Aventuras de Alice no País das Maravilhas'' (1865) e ''Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá'' (1872). A tarefa ficou a cargo da roteirista Linda Woolverton (de ''A Bela e a Fera'' e ''O Rei Leão''), que optou por mostrar a personagem-título um pouco mais velha, prestes a completar 20 anos.
O filme, portanto, é uma espécie de continuação da história original, protagonizada por uma Alice em crise por não se adequar aos padrões conservadores da Inglaterra vitoriana. Insegura por conta de um pedido de casamento, ela foge da própria festa de noivado e acaba indo parar no mundo subterrâneo que visitou quando ainda era criança. Lá, tem de enfrentar perigos e descobrir sua identidade.
A novata Mia Wasikowska, no papel principal, lidera um time de estrelas que encarna a galeria de seres fantásticos criados por Carroll. Johnny Depp, velho colaborador de Burton, é o Chapeleiro Louco. Helena Bonham Carter, mulher de diretor, vive a Rainha Vermelha, de cabeça gigante. O elenco ainda conta com figuras como Anne Hathaway, Crispin Glover, Alan Rickman, Michael Sheen, Stephen Fry e Christopher Lee.
Especialista em adaptações
Hábil em levar para a tela fábulas de tom sombrio, Burton é dono de uma filmografia basicamente composta por adaptações de histórias consagradas. Esteve à frente de ''A Fantástica Fábrica de Chocolate'' (2005), ''O Planeta dos Macacos'' (2001) e dos dois primeiros títulos da franquia ''Batman'' (1989 e 1992). Seu currículo ainda inclui um rol de filmes considerados cult, como ''Peixe Grande e Outras Histórias '' (2003), ''Ed Wood'' (1994) e ''Edward Mãos de Tesoura'' (1990). São dele também as animações em longa-metragem ''A Noiva Cadáver'' (2005) e ''O Estranho Mundo de Jack'' (1993).
E foi justamente como animador que o cineasta ingressou em Hollywood. Contratado pela Disney, ele bateu de frente com os executivos da companhia por não conseguir emplacar algumas de suas ideias mais ousadas. Uma relação de amor e ódio que persiste até hoje, como indicam as entrevistas concedidas por Burton no lançamento de ''Alice no País das Maravilhas''. De acordo com várias matérias publicadas na imprensa estrangeira, ele se mostrou um tanto desconfortável com o processo de produção, marcado pela utilização extensiva de recursos de computação. Tanto que o filme só ficou pronto duas semanas antes da estreia.
Para se ter uma ideia, apenas dois cenários foram realmente construídos, o que o obrigou a dirigir os atores em frente a um fundo verde a maior parte do tempo. Outra ''bronca'' deu conta das versões em 3D, que não estavam previstas no projeto original. Enfim: por questões contratuais, o filme ganhou uma ênfase tecnológica na edição final que pode ter desagradado o realizador.
Brigas de bastidores à parte, o fato é que seu próximo projeto vai combinar técnicas antigas e inovadoras. Trata-se de ''Frankenweenie'' remake de um curta-metragem que ele mesmo dirigiu no início da carreira. Previsto para estrear em 2011, o filme será uma animação com personagens de massinha - mas, seguindo a tendência do mercado, também terá uma versão tridimensional.


SAIBA MAIS



■ Or­ça­do em US$ 240 mi­lhões, ‘‘Ali­ce no ­País das ­Maravilhas’’ co­me­çou a ser ro­da­do em ­maio de 2008.
■ Foi o fil­me de Tim Bur­ton que ­mais fa­tu­rou na es­treia. Ar­re­ca­dou US$ 116.3 mi­lhões nos EUA e US$ 94 mi­lhões em ou­tros 41 paí­ses.
■ Com re­ceio de per­der di­nhei­ro, re­des de ci­ne­mas da In­gla­ter­ra che­ga­ram a amea­çar um boi­co­te à pro­du­ção, ca­so a Dis­ney re­du­zis­se o in­ter­va­lo en­tre a es­treia nos ci­ne­mas e o lan­ça­men­to em DVD. Mas is­so não acon­te­ceu.
■ Can­sa­do de di­ri­gir o elen­co à fren­te de um fun­do ver­de (que de­pois se­ria preen­chi­do com ce­ná­rios for­ja­dos por com­pu­ta­ção), Bur­ton pas­sou a ­usar ócu­los com len­tes ­azuis pa­ra ‘‘­aturar’’ as fil­ma­gens.
■ ­Além da tri­lha so­no­ra or­ques­tra­da, a car­go de ­Danny Elf­man (co­la­bo­ra­dor as­sí­duo de Bur­ton), a Dis­ney pro­du­ziu ou­tro CD, com mú­si­cas ins­pi­ra­das no lon­ga. ­Avril La­vig­ne, ­Franz Fer­di­nand e Ro­bert ­Smith (The Cu­re) par­ti­ci­pam do dis­co.

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