O esquecimento paira sobre João do Vale
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de dezembro de 1997
Ranulfo Pedreiro Londrina 
ReproduçãoJoão do Vale
morreu na
miséria, mas
sua obra se
compara a de
Luiz Gonzaga
com quem
divide a
fama de
grande
compositor
nordestinoA miséria do sertão, acentuada pela seca, era paisagem comum para João do Vale. Nascido em Pedreiras, no Maranhão, o compositor viajou pelo interior do Nordeste trabalhando como ajudante de caminhoneiro. Ele não concordava com o que via, mas indignação maior veio quando soube que Assis Chateaubriand presenteou a rainha da Inglaterra com um colar de pedras preciosas. Aos poucos, se formou no maranhense a vontade de cantar essas discrepâncias. João do Vale seguiu a trilha de compositor popular que o levou ao reconhecimento nacional e ao esquecimento em que se encontrava quando morreu, há um ano.
A infância foi consumida vendendo laranjas, doces e balas. Já adolescente, João do Vale se tornou auxiliar de caminhoneiro. Em Minas se aventurou pelo garimpo. Foi se virando até desembarcar no Rio de Janeiro, onde trabalhou na construção civil.
À noite, nos horários de folga, percorria as rádios divulgando suas músicas. Um ano após sua chegada ao Rio, elas começaram a ser gravadas. Em pouco tempo eram interpretadas por Dolores Duran, Marlene e Luiz Gonzaga. João do Vale também compôs a trilha sonora de alguns filmes de Roberto Farias.
Sua carreira seguiu esse ritmo até que Zé Kéti o levou ao Zicartola, o bar de Cartola e Dona Zica, onde João do Vale passou a se apresentar. Foi ali que Oduvaldo Viana Filho o convidou para participar de um projeto que reuniria um compositor nordestino, um sambista dos morros cariocas e uma garota da Bossa Nova.
João do Vale, Zé Kéti e Nara Leão encabeçaram o show Opinião, que fazia franca oposição ao golpe militar. E opinião é o que não faltava às letras de João do Vale. Embora fosse analfabeto - sua vaga na escola, durante a infância, foi cedida ao filho de um figurão -, o compositor mantinha um olhar crítico sobre a sociedade brasileira.
Questionou arrendamentos de terra em Sina de Caboclo, parceria com Jocastro Bezerra de Aquino; elogiou os conhecimentos do sertanejo em Uricuri, com José Cândido; fez músicas autobiográficas, como Minha História, com Raymundo Evangelista, em que criticava a falta de oportunidades e as dificuldades de não saber ler. Compôs Pisa na Fulô, com Silveira Jr. e Ernesto Pires; Coroné Antônio Bento - com Luiz Vanderlei -, sucesso com Tim Maia, e Na Asa do Vento, com Luiz Vieira, gravada por Caetano Veloso.
E fez também Carcará, seu maior sucesso, com João Cândido, responsável pelo destaque de Maria Bethânia em início de carreira, numa interpretação vibrante. Na letra, o compositor compara o sertanejo ao carcará, ave que sobrevive comendo carcaças de animais mortos pela seca.
João do Vale era um sujeito pouco urbano. Não carregava documentos, perdia papéis importantes, se recusava a acumular dinheiro. Andava só de ônibus. Caminhava descalço pelas ruas. Não negava que já tinha vendido músicas para compositores famosos.
Com o show Opinião, passou a ter problemas com a censura. As gravadoras se afastaram. Ele passou a morar em Nova Iguaçu, baixada fluminense. Foi agraciado como Comendador da Ordem do Rio Branco, título que não o impediu de cair na miséria. Em 1987, o compositor deu entrada num hospital de Nova Iguaçu com o crânio fraturado em consequência de uma queda. Internado como indigente, só foi identificado um dia depois.
Ao saber da situação, Chico Buarque o transferiu para uma clínica particular e contatou os amigos. O resultado foi o Projeto João do Vale, que tentou resgatar a obra do compositor com lançamento de vídeo, livro e disco, além de alguns shows.
Em consequência da queda, João do Vale teve o lado direito do corpo paralisado. Ele voltou a viver em Pedreiras, até sofrer, no ano passado, um derrame fatal. João do Vale ainda permanece um nome pouco lembrado na história da música popular, embora seja considerado um dos mais importantes compositores nordestinos, ao lado de Luiz Gonzaga.


