O espírito humano está à mostra em 'A Dócil'
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de junho de 2006
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O Teatro Ouro Verde será o palco hoje à noite, às 20h30, da vulnerabilidade do homem, o espectro mais visível da obra do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), o grande perturbador da consciência, que povoou sua obra com anti-heróis, que cavocam a própria carne para expôr o espírito humano.
Na adaptação de uma novela do autor russo, a Companhia Pigmaleão de Pesquisa Teatral, de Porto Alegre (RS), em única apresentação do espetáculo ''A Dócil'' no FILO, penetra a aparência vã das relações sacralizadas na conversa de um viúvo consigo mesmo diante do esquife da mulher suicida.
Ao longo dessa experiência em que, geralmente o autor costuma jogar os seus personagens, oferecendo sempre algum tipo de redenção, o viúvo tenta reconstruir a trajetória da mulher, que se matou jogando-se de uma janela, abraçada a um ícone religioso.
Um inferno de dúvida surge sempre no universo do autor, criador do romance polifônico em que diversas vozes do personagem se entrelaçam para falar da fatalidade, destino, orgulho, opiniões fixas, amor e desamor.
Em ''A Dócil'' essa observação da realidade inclui um outro ingrediente: a temática feminina, peneirada pela culpa em Dostoiévski. Nele o sentimento é uma condição existencial não circunscrito a um acontecimento imediato.
A diretora e pesquisadora da companhia, Nair D' Agostini, que também traduziu e adaptou o texto, estudou na antiga União Soviética, com alguns discípulos do teatrólogo Constantin Stanislávski, um dos primeiros a adaptar Dostoiévski para o teatro.
Com um elenco de seis atores, o grupo montou o texto para aprofundar a pesquisa artística no sistema de Stanislávski, especificamente na última fase, o Método da Análise Ativa, que parte da ação consciente para alimentar a criação inconsciente.
Pela narrativa polifônica, que permite descobrir outras facetas do homem e da vida, o público poderá experimentar o poder de uma ficção, que desnorteou até Freud, que em seus últimos dias fugia do espectro mais visível presente na obra de Dostoiévski, que com aguda facilidade ainda é capaz de entrar nos domínios do coração humano.
SERVIÇO
- A Dócil: Direção, tradução e adaptação: Nair D'Agostini. Assistente de direção: Michele Zaltron. Elenco: Cristiane Werlkang, Gustavo Muller, Luana Michelotti, Maria Andréa Soares, Michele Zaltron e Rafael Sieg. Iluminação: Nara Maia. Trilha sonora: Risomá Cordeiro. Cenografia: Nélson Magalhães. Figurinos: Cléber Laguna: Duração:1h45.
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