O espírito 'beat' do idioma
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sexta-feira, 19 de maio de 2017
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 

"Em troca de algumas informações, vou te dar meus discos do fats domino, umas toalhas com bordado ele e ela & a tua própria assessora de imprensa... colabora aí. Cai aqui. Minha cabeça está vazia. Não tenho hostilidade. Meus olhos são dois pátios de carros usados." O pequeno trecho da nova tradução do livro "Tarântula (1971)", de Bob Dylan, dá uma amostra de que o tom de prosa experimental continua presente. "Defino como um livro caleidoscópio, de imagens coladas; não é para todo mundo. Mas usei outro vocabulário, expressões e gírias diferentes da época em que foi escrito. Tentei retirar as marcas da temporalidade para aproximar mais os novos leitores", diz Rogério Galindo, jornalista da Gazeta do Povo, responsável pela edição, agora com a estampa "Prêmio Nobel de Literatura". "Pedi à benção ao Paulo Henriques Britto antes de começar", atenta sobre a única tradução existente no Brasil feita em 1976 pelo respeitado tradutor de "Ulisses (1922)".
Se este, por si só, já era um desafio, o anúncio do prêmio veio a reforçar a situação. Tanto é verdade que, tão logo o prêmio foi revelado, editoras correram para comprar direitos autorais das obras do compositor. Uma delas, a tão aguardada e inédita "Letras (2015)", uma compilação de todas as composições que Bob Dylan escreveu ao longo da carreira.
Coincidentemente, o escolhido foi Caetano Galindo, irmão de Rogério, professor de Linguística Histórica na UFPR (Universidade Federal do Paraná) e doutor em Linguística pela USP (Universidade de São Paulo). "Não há nada que difira da tradução literária "normal". Como não quisemos manter metro e rima, objetivando mais o "sentido", as adaptações necessárias são menos profundas. Há bastante diferença nas letras, mesmo de um disco pro outro, de um ano pro outro. Há, na verdade, uma impressionante variedade temática e formal", comenta o primogênito sobre o livro recheado das letras em 640 páginas. Esta edição, porém, contempla apenas até o ano de 1974. A segunda, com o restante, deve ser lançada já no início do próximo ano.

FÃS
Ao mesmo tempo em que os fãs ávidos esperam para lerem as traduções, ambos irmãos confessam não serem amantes do trabalho de Dylan, apesar de terem recebido o convite com muita honra. Caetano credita a escolha de seu nome por ser um tradutor mais adequado ao projeto e por já ter traduzido as letras de Lou Reed para a editora. "Dylan nunca foi dos meus interesses centrais. Eu sou muito mais da música que da letra, no caso da canção, e esse não é exatamente o forte dele. E, na verdade, essa foi uma das maiores razões da minha empolgação ao aceitar o trabalho: seria a chance de ler detalhadamente uma produção que muita gente que eu respeito muito considera central para a literatura do século XX. E posso dizer que saí do projeto todo com uma noção bem mais matizada dessa importância literária", comenta o professor que acumula outras traduções como James Joyce e Thomas Pynchon.
Já em sua aventura para desvendar o mundo psicodélico de Tarântula, Rogério, que considera o convite por ter feito outras traduções como a de Samuel Beckett, dessa vez, mergulhou na literatura beatnik de Dylan. "Ele é um bom representante de sua época, dessa cena hippie pós modernista. Trata-se de um discurso bem livre sobre o caos urbano da época. Não existe personagem ou trama; são cenas surrealistas, sem conexão e corpos improváveis. É para quem gosta de uma literatura mais crítica. Mesmo não sendo fã do compositor, foi divertido ter contato com tudo isso, com sua obra e trazê-la a um novo público, pois esse foi o único livro de Dylan escrito com a intenção de ser um livro. E se a ideia da Academia era premiar o cancioneiro americano, ele é o nome." "Um letrista é um poeta. Dylan é um poeta. O Nobel, por outro lado, tende a sempre causar controvérsia, sendo o único prêmio literário mundial", completa o irmão.
OBRAS
Uma coisa é certa, o Nobel de Literatura dado a Bob Dylan no final do ano passado deixou o universo literário agitado por premiar um compositor à custa de renomados escritores e poetas. Uma legião saiu em defesa do norte-americano dizendo que as letras dele são poesia. Enquanto isso, Dylan reagiu com um grande silêncio, falando sobre o assunto apenas duas semanas após o anúncio. Bob Dylan lançou três livros ao longo da vida: Tarântula (1971); Crônicas Volume Um (2004); e Letras (2012). Dois deles já haviam sido lançados no Brasil Tarântula em 1986 (uma coletânea de prosa escrita entre 1965 e 1967, anos áureos de Dylan) e Crônicas em 2005 (autobiografia que resgata momentos de sua vida e obra a partir da chegada, em 1961, em Nova York). Outras dezenas falam sobre o compositor ou possuem referências às suas obras. Com a indicação ao prêmio, portanto, a editora Companhia das Letras e a Tusquets trataram de garantir suas traduções no Brasil e a Planeta relançou em seguida.

Letras (1961-1974)
Autor: Bob Dylan
Tradução: Caetano Waldrigues Galindo
Editora: Companhia das Letras (640 págs.)
Preço: R$ 89,90

Tarântula
Autor: Bob Dylan
Tradução: Rogério Waldrigues Galindo
Editora: Tusquests (136 págs.)
Preço: R$ 36,90
LETRAS
Sopra no vento (Blowin in the Wind)
[Quantos caminhos há de um homem percorrer
Antes de se dizer que ele é um homem?
Sim, e quantos mares há de uma pomba branca navegar
Antes de adormecer nas areias?
Sim, e quantas vezes voarão as bolas de canhão
Antes de serem proibidas pra sempre?
A resposta, meu amigo, sopra no vento
A resposta sopra no vento...]
Quanto eu sei (How much do I know)
[...Quando a morte cobrar seu preço
Que toda grana que fizeram
Jamais vai resgatar a sua alma
E espero que vocês morram
E que essa morte venha logo
Vou seguir o seu caixão
No crepúsculo pálido
E ver vocês descerem
Para o leito de morte
E vou ficar sobre o seu túmulo
Até ter certeza de que estão mortos]
(Tradução: Caetano Galindo)
TARÂNTULA
Balada em Sê Banal Menor
[estavam presos os pés entre a anágua & tom dick & harry passaram por ali & todos eles gritaram... os lábio dela era tão pequeno & ela tinha gengivite & quando vi o que eu tinha feito, protejo meu rosto/ o tempo é controlado por alguma doida líder de torcida esnobe & botando a língua pra fora, deixando cair um barrete roxo, ela se envolve com um ônibus, acaricia um crucifixo sangrento & está rezando pra roubarem sua bolsa na alameda da pólvora!...]
Sem Sentido como uma Bruxa
[tropeça para a luz aqui abraão... e que tal esse teu patrão? & não me vem com essa que você só cumpre ordens! eu posso não estar por dentro da tua língua de sinais mas venho em paz, busco conhecimento... Minha cabeça está vazia. não tenho hostilidade. Meus olhos são dois pátios de carros usados. vou te oferecer uma xícara de limpador de urna a gente pode aprender um com o outro...]
(Tradução: Rogério Galindo)


