O que uma obra de arte precisa para fazer sucesso? Será que ela precisa de quantidade de público que a veja para atingir seu objetivo? Será que é, então, o preço que se paga por ela no mercado, seu sucesso comercial? Onde é que a idéia de obra se completa e a partir daí ela cumpre sua função, digamos, estética, no mundo? Mais: a arte deve ‘‘ir aonde o povo estᒒ ou é o ‘‘povo’’ é quem deve se interessar em ampliar seu repertório de experiências culturais?
Em primeiro lugar, o que se convencionou ser chamado de objeto de arte necessita do estabelecimento de trocas simbólicas ou mesmo concretas, seja por que meios forem para cumprir seu papel de gerador de significados. O artista até pode dizer que cria para sua satisfação pessoal, mas só podemos chamar algum objeto de ‘‘artístico’’ na medida em que exista uma relação entre obra e público, mesmo que muitas vezes nem seja este o interesse de seu autor. É o caso da ‘‘arte’’ dos alienados, dos loucos.
Essa relação, obviamente, independe da quantidade de pessoas que viram essa ou aquela peça artística. E independente também da quantidade de pessoas que entenderam seu significado. Nem o sucesso popular, nem o preço pago por uma obra, agregam ou deixam de agregar qualquer outro valor que não sejam aqueles de essência cultural. Basta comparar a ‘‘arte’’ indígena – com seu rico acervo de mantos de plumas e objetos confeccionados manualmente, com função ritualística, numa sociedade organizada segundo um modelo tribal – com a arte pop, vendendo gravuras do líder da revolução comunista na China, Mao Tsé Tung – como criações artísticas – para o povo americano (e, por extensão, a nós) comprar.
Nada disso, no entanto, é desconhecido da arte contemporânea, que se utiliza de várias estratégias para mostrar sua produção. Talvez uma de suas mais poderosas armas tenha sido aliar ao discurso plástico a prática da documentação fotográfica, o registro dos acontecimentos e das obras que se perderam no tempo e no local onde foram feitas. A arte descobriu que a fotografia, ao invés de ser uma concorrente, poderia se tornar uma ferramenta de grande valia em trabalhos como instalação, performances e também ao que se convencionou chamar de land art (arte de paisagem).
Richard Long é um desses artistas que cria obras em terrenos inóspitos para que ninguém tenha acesso direto a elas. Sabemos de seu trabalho no meio de desertos, por exemplo, apenas como marca ou registro humano de alguém que passou por ali, porque existe a fotografia mostrando uma organização espacial (geralmente em forma de círculo, que ele faz com pedras) em meio a uma imensa paisagem silenciosa.
Quem é que sabe hoje como está a obra ‘‘Quebra-mar espiral’’, feita em 1970, por Robert Smithson (1938-73), no Grande lago Salgado, em Utah, Estados Unidos, em que ele junta mitos de origem e instalação de arte para realizar o que se convencionou chamar de site specific, ou seja, obras criadas para um determinado lugar?
Mais delicado e menos espetacular ainda (digo, nesse sentido de coisa descartável, tão associado à sociedade de massas) é a obra de Andy Woodsworph que cria trabalhos de intensa riqueza plástica e beleza singular no meio da natureza, com diferentes cores de folhas que logo serão levadas pelo vento, com pedaços de gelo que se derreterão, pedras empilhadas que perderão seu frágil equilíbrio, gravetos recolhidos no meio da paisagem que logo tornarão a ser paisagem novamente sem que ninguém lamente sua duração, sem que ninguém possa comprar a obra, sem nenhuma palma de reconhecimento. Só a fotografia como testemunho documental.
Assim, o território das ‘‘experiências culturais’’ vai se expandindo e o que parecia hermético torna-se compreendido. E este é o maior legado da arte à cultura, nos tornando certamente mais humanos.
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