São Paulo, 12 (AE) - É impossível falar sobre "O Espelho" sem tirar a graça do elemento-surpresa que é assistir ao filme do iraniano Jafar Panahi. Daí a sugestão: acredite que se trata de um filme instigante e talentoso. Pare por aqui. Veja o filme e leia o texto depois. Mas veja o filme: vale a pena.
Panahi é o diretor de "O Balão Branco", aquele filme que atraiu numeroso público em São Paulo para a saga da garota interpretada por Ymina Mohammad-Khani. Ela está de volta em "O Espelho". Entrevistado pela AGÊNCIA ESTADO no ano passado, quando veio participar da Mostra Internacional de Cinema, Panahi disse que gosta de revelar o mundo pelos olhos das crianças. Essa pureza não é apenas atraente, em termos de dramaturgia, como também facilita o trânsito dos filmes na censura, que ainda é rígida no Irã.
Ymina tem um rosto muito expressivo, marcado por grandes olhos. Num certo sentido, ela parece ter um rosto de mulher num corpo de criança, alguém que já viu muito ou viu tudo. Essa expressividade contribui para o filme, pois o cinema, nunca é demais repetir, começa e dilata-se na epiderme dos atores. A primeira parte de "O Espelho" sugere uma continuidade da delicada linha dramática de "O Balão Branco".
Uma menina (Ymina) espera pela mãe na frente da escola. As colegas todas vão embora, ela fica sozinha, a mãe não chega. A menina impacienta-se e resolve ir para casa sozinha. Aventura-se pelas ruas próximas, chega até mesmo a pegar um ônibus. São imagens que revelam uma Teerã nunca, ou raras vezes, vista na tela. E, então, chega a cena que corta o filme em dois. A menina olha para a câmera e declara, de repente, que não quer mais fazer o filme.
Interrompe-se a ação. Aparecem os integrantes da equipe técnica, à frente o diretor Panahi, discutindo entre eles. Nada consegue demover Ymina: ela não quer e pronto. Mas Ymina carrega escondido na rua o microfone para a captação do som das cenas. A exemplo da protagonista da história, ela também diz que vai para casa sozinha. A diferença é que começa a ser seguida pela equipe de filmagem, que vai gravando tudo. Seus pedidos de informação para as pessoas a quem encontra na rua, o diálogo com a velha que se sentava ao seu lado no ônibus, as falas e sons que se ouvem enquanto ela se desloca.
Cria-se uma situação curiosa. Para todos os efeitos a menina está sozinha em Teerã, mas o espectador fica relativamente tranquilo, pois sabe que ela está sendo seguida e, portanto, nada de mal poderá ocorrer-lhe. Isso não elimina as questões que o filme levanta. São questões que remetem à essência do ato de fazer cinema.
Em São Paulo, no ano passado, Panahi não deixou absolutamente claro se Ymina realmente se rebelou durante a filmagem ou se a rebelião, como um artifício, fazia parte da estrutura dramática do roteiro. Pode-se acreditar, assim, que o fato realmente ocorreu e o filme passou a ser feito na improvisação. Mesmo que a situação fosse manipulada, porém, não ia alterar uma discussão que remete ao título do filme.
Por que o espelho? O espelho reflete uma imagem e, sob muitos aspectos, serve como definição do próprio cinema: um espelho da realidade, uma forma de refleti-la na tela. Por princípio, o espelho sugere duas imagens que se contemplam. É o enigma do filme de Panahi. O que é realidade, o que não é? O que é vida, o que é imitação? É um filme muito interessante, que faz perguntas sem propor soluções. Essas ficam para o espectador.
Não é forçar a barra dizer, como faz o organizador da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Leon Cakoff, que o filme de Panahi propõe o outro lado de um espelho, como na alucinante viagem de "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll. Panahi começou no cinema sob a influência de Abbas Kiarostami, que foi o roteirista de "O Balão Branco". Agora livre da influência (assina o roteiro, a direção e a montagem de "O Espelho" sozinho), Panahi não deixa de seguir preocupado com a linguagem cinematográfica e suas possibilidades dramáticas. Ele vai um passo à frente de "O Balão Branco" e assina um dos grandes filmes dessa grande cinematografia que é a iraniana.
Serviço - "O Espelho". Drama. Direção de Jafar Panahi. Com Ymina Mohammad-Khani, Naser Omumi. Duração: 80 minutos. Espaço Unibanco, em São Paulo, às 14h10, 15h40, 17h10, 18h40, 20h10 e 21h40. Livre. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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