Histórias de erros e reparações sempre infestaram a literatura nos mais diferentes gêneros. Tema recorrente, pode ser encontrado na obra de centenas de escritores em constelações de desculpas e perdões.
Mas nem todos os erros podem ser reparados. Alguns deles crescem como musgo pelas paredes e nenhum sol é capaz de refreá-lo. ''Reparação'', romance do escritor inglês Ian McEwan, traz um belo exemplo desse tipo de erro irreparável. Não se trata de erros exacerbados e radicais, mas delicados e invisíveis.
''Reparação'' narra a história de Briony, uma pré-adolescente que cultiva a ambição de se tornar escritora. Imersa num mundo fantasioso, inventa realidades para o que não entende ou não conhece. Misturando elementos de sua imaginação com os fatos reais, cria situações onde verdades e inverdades se confundem.
Certo dia presencia uma cena entre sua irmã mais velha e o filho da empregada da casa. Uma cena que ela, em seu universo fantasioso, entra em contato com a sexualidade. Algo que ela não sabe o que é, mas que precisa criar um entendimento.
Briony inventa uma situação que leva o rapaz à prisão, condenado por estupro. Uma situação que leva a irmã a romper com a família e sumir no mundo. Toda a família se desintegra, as vidas seguem rumos inesperados e traumáticos. Tudo devido a uma inverdade, a um erro imaturo.
Anos depois, já adulta, Briony procura reparar seu procedimento que destruiu a vida de pessoas próximas e de sua família. Para executar a reparação, tenta os meios mais simples entre desculpas e perdões, sem resultado. Não encontra meios para uma reparação. O céu caiu e não pode ser reerguido.
Ambientado no final da década de 30 e tendo como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial, ''Reparação'' é retrato de como uma menina entra, pela primeira vez, em contato com o sentimento da paixão. Uma paixão restrita ao universo adulto que ela não tem condições de entender. Sem ferramentas apropriadas, ela utiliza o moralismo puritano como referência e provoca a destruição em cadeia.
Um dos grandes escritores ingleses da atualidade, Ian McEwan não fica restrito a narrativa psicológica em ''Reparação''. No final do romance o leitor recebe a notícia que toda a narrativa anterior era um livro escrito pela própria Briony. Uma tentativa de tirar o peso que carrega nas costas ao longo de décadas. O fantasma da angustia de não conseguir reparar um erro cometido no passado.
Ian McEwan vai além. Sugere que a própria literatura atue como instrumento reparador da vasta coleção dos erros humanos. Se as ações não teriam poder de corrigir os erros, a literatura pelo menos teria tal atuação no campo subjetivo.
Mas Ian McEwan vai mais além. Sugere que nem mesmo a literatura teria essa capacidade. Sua tentativa pode ser nesse sentido, mas seus resultados não teriam o claro poder restaurador. Sua capacidade seria a de funcionar apenas como espelho. O reflexo dos homens como eles são.
A primeira edição brasileira de ''Reparação'' foi publicada no Brasil em 2001 pela editora Companhia das Letras. Uma nova edição deve chega às livrarias no próximo mês. O romance ficou mais conhecido por sua versão cinematográfica realizada pelo diretor Joe Wright em 2007. No Brasil o filme ganhou o nome de ''Desejo e Reparação''.
Se comparado a outros romances do escritor nascido em 1948, ''Reparação'' se revela o mais sofisticado de todos. ''Sábado'' (2005), ''O Inocente'' (2003), ''Solar'' (2010), ''Na Praia'' (2007) e ''O Jardim de Cimento'' (2009) ficam em desvantagem.
Serviço:
Reparação
Autor - Ian McEwan
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Paulo
Henriques Britto
Páginas - 446
Quanto - R$ 62,00


  O problema desses cinquenta e nove anos é este: como pode uma romancista realizar uma reparação se, com seu poder absoluto de decidir como a história termina, ela também é Deus? Não há ninguém, nenhuma entidade ou ser mais elevado, a que ela possa apelar, ou com que possa reconciliar-se, ou que possa perdoá-la. Não há nada fora dela. Na sua imaginação ela determina os limites e as condições. Não há reparação possível para Deus nem para os romancistas, nem mesmo para os romancistas ateus. Desde o início a tarefa era inviável, e era justamente essa a questão. A tentativa era tudo.
(Fragmento de ‘‘Reparação’’ de Ian McEwan)

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