Existem duas maneiras básicas de pensar a arte da ficção. A mais usual segue a forma ensaística, que utiliza como ferramenta as teorias literárias. A menos usual, utiliza a própria ficção para abordar a arte ficcional. Em seu último livro, ''Viagem no Scriptorium'', o escritor Paul Auster utiliza esta segunda opção para refletir sobre a criação de histórias.
Aparentemente, ''Viagem no Scriptorium'' é um romance comum que se propõe narrar uma história ficcional. Tudo começa com um velho isolado num quarto. O local não é definido. Pode ser um hospital, um asilo ou mesmo uma prisão ou manicômio. O lugar é monitorado 24 horas por câmera e microfones. Sem memória, o homem tenta recompor sua história através de fotos antigas e fragmentos de textos que encontra na mesa do quarto.
O homem recebe regularmente a visita de uma enfermeira, um médico e um policial. Os três desejam que ele reencontre seu passado, que tenha de volta a memória pontuada pelas lembranças. Isso porque estão, de alguma forma, vinculados a algum elemento do passado do velho.
O narrador, sem saber o nome do homem, confere a ele o nome fictício de Blank. Na língua inglesa o termo ''blank'' é utilizado para nomear uma página em branco a ser preenchida. Trata-se de uma pequena pista que Paul Auster oferece ao leitor sobre a história narrada. Uma pista importante para o entendimento do romance, que será elucidada nas últimas páginas.
Dois processos de conquista da própria memória são utilizados por Blank. Um deles seria através das fotografias que encontra no quarto, aliado às conversas com as pessoas que o visitam. Outro seria através da leitura de um manuscrito que também encontra no local, o relato de uma história escrita por um autor desconhecido. Um relato interrompido pela metade, onde Blank é impelido a criar o restante da história.
Blank é um homem sem lembranças. Para ter um passado ele precisa criá-lo. E inventar umu passado é justamente conferir um sentido à sua existência. Paul Auster parte do princípio de que ''se quer contar uma boa história, não pode ter dó de ninguém''. Em outras palavras, não se deve ter pena dos personagens que compõem a narrativa. Se o sentimento de dó cabe a alguém, cabe apenas ao leitor, não ao autor de ficção.
''Viagem no Scriptorium'' aparentemente é um romance comum. Apenas aparentemente. Na realidade se apresenta como uma reflexão do autor sobre os mecanismos que envolvem a arte ficcional. A obra assume a imagem de uma página em branco onde o escritor procura construir personagens para compor uma história. Sua narrativa é exatamente a descrição subjetiva das dificuldades dessa tarefa, suas dúvidas, incertezas e inseguranças.
O romance é a experiência de um escritor tentando criar uma história a ser narrada. Nesse processo, bate de frente num paradoxo. Sem o autor as personagens praticamente não existem, são nada, um zero. Sobrevivem na mente daquele que as criou. Quando assumem forma no papel, o processo muda completamente. As personagens passam a sobreviver àquele que as criou. O criador deixa de existir, as personagens não, seguem em frente no interior das histórias que são contadas ou lidas mesmo após a morte do autor. O espelho imprevisto da ficção.
Um dos grandes escritores norte-americanos da atualidade, Paul Auster inverte a ordem usual da ficção em ''Viagem no Scriptorium''. Sua opção está em não criar um personagem depois narrar sua história, mas criar uma história para um personagem sem história, um papel em branco. O livro pode ser encarado um exercício nesse sentido, e por ser uma tentativa, não tem a obrigatoriedade em ser conclusivo.
''Viagem no Scriptorium'' é claramente um romance diferente de outros escritos pelo autor como ''Desvarios no Brooklyn'', ''O Livro das Ilusões'', ''Música do Acaso'', ''Noite do Oráculo'', ''Leviatã'', ''Mr. Vertigo'' e ''Cortina de Fumaça''. O leitor habituado às suas obras, encontrará uma narrativa mais conceitual, com uma dose maior de ousadia. Encontrará a rica arquitetura literária Paul Auster na estrutura interna, não nas aparências.

Serviço:
- Livro ''Viagem no Scriptorium'', de Paul Auster. Editora Companhia das Letras, tradução de Beth Vieira, 126 páginas, R$ 32,00.

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