O espaço sideral-existencial
'Ad Astra' é viagem ao universo exterior com ressonâncias profundas na odisseia pessoal
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de outubro de 2019
'Ad Astra' é viagem ao universo exterior com ressonâncias profundas na odisseia pessoal
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Nos últimos anos estamos assistindo, não sem alguma surpresa, mas sempre com muito agrado, a um renascimento do drama espacial de autor, subgênero que nos anos 1960 e 70 apresentou exemplos tão ilustres como “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, ou a resposta soviética “Solaris”, de Andrei Tarkovski. Esta última década, seja como for, foi a mais abundante em odisseias espaciais com fortes marcas pessoais: Alfonso Cuarón, com aquela experiência feminista-sensorial chamada “Gravidade”; Christopher Nolan, com suas encruzilhadas paternais de “Interestelar”; Damien Chazelle, com seu retrato mais denso de personagem em “O Primeiro Homem”, e Claire Denis com “High Life”, ainda inédito no Brasil, conjugando equações rumo a um buraco negro ao mais selvagem sexo tântrico.
A surpreendente existência desses títulos não significa que “Ad Astra”, em exibição em Londrina, deixe de ser raridade. O filme é um blockbuster íntimo e com personalidade; uma produção com orçamento mais que confortável (U$ 88 milhões), na qual, porém, percebe-se a marca pessoal de seu diretor em cada fotograma.
Existe larga tradição cinematográfica que utiliza o espaço exterior para projetar os dramas existenciais da humanidade: solidão, dor, amor, abandono. “Ad Astra” se soma a esta galeria de realizações que leva seu protagonista em longa viagem, interna e externa. Aqui, a viagem é mais profunda é a pessoal. “Ad Astra” é a primeira incursão do cineasta James Gray na ficção-científica; ele é um dos derradeiros e clássicos moicanos nesta Hollywood que, obviamente a olhos vistos, se afunda em mediocridades. Como síntese do argumento, temos um astronauta, Roy McBride (Brad Pitt, também principal financiador do filme com sua companhia Plan B), lançado em jornada através dos labirintos do sistema solar para tentar encontrar o pai (James Lee Jones), desaparecido 30 anos atrás. Parte do título provém da frase em latim “Per áspera ad astra”, ou “por caminhos ásperos até os astros”, lema utilizado por um sem fim de organizações e empresas.
Apesar de visto com descaso pela comunidade financeira de Hollywood, e apreciado com cínica moderação pela maioria da crítica (sempre duvidosa) americana, James Gray fez mais um filme de gênero como gosta e sabe: concepção adulta e moralmente complexo. Seus modelos são os mestres da velha-nova Hollywood e heróis europeus como Renoir, Bergman e até Visconti com seu realismo operístico. Desde o início de sua carreira, Gray se empenhou em cultivar certo modelo de cinema moldado nos anos 1970 e 80, escrevendo e dirigindo joias como “Fuga para Odessa”, “Os Donos da Noite”, “Caminho Sem Volta”, “Amantes”, “Era Uma Vez em Nova York” e o mais recente “Z – A Cidade Perdida”. Se localizado há três décadas, a reduzida mas luminosa filmografia de Gray teria muito maior receptividade sem grandes esforços.
Mas estamos em outro tempo. Um tempo em que as vozes mais pessoais, criativas e interessantes estão sendo marginalizadas e depreciadas de formas e níveis novos. A ideia de desafiar o publico tem sido gradualmente substituída pela de servir ao publico, uma ideia muito mais corporativa. E todo mundo parece estar jogando este jogo. Mas seria todo mundo ? Felizmente, nem todo mundo: diretamente do coração desta indústria sem coração, um astro como Brad Pitt vem impulsionando a carreira de Gray já há alguns anos. Em 2016, produziu ( e quase interpretou) a magnífica aventura “Z: a Cidade Perdida”, quando o cineasta deixou sua zona de conforto nova-iorquina para filmar no Reieno Unido e na selva da Colômbia.
A viagem investigativa do astronauta McBride é por ele considerada de maneira relativa. Seu trabalho levou embora a mulher da sua vida (Liv Tyler, fugidia na tela como sua personagem), aliás levou embora muito mais do que ele deu. E descobre (ou só confirma) que tem procurado o importante nos lugares errados. Missão difícil de rejeita, também porque é muito pessoal. O causador do caos atmosférico na Terra pode ser seu pai, McBride sênior, astronauta desaparecido há décadas na órbita de Saturno. Um pai que provavelmente o abandonou. Que incutiu nele uma ideia perniciosa de masculinidade. Da Terra à Lua, depois até Marte e depois a Netuno, a jornada do até então seguro de si, controlado, autoimune astronauta passa a ser a resolução de um dilema exterior e interior, uma fascinante aventura de busca de respostas para a crise planetária e outra de natureza íntima.
Em resumo, “Ad Astra” é filme com o selo puro de James Gray, sobre jornadas míticas, pais e filhos e intensos dilemas morais. Resolvido visualmente com seu habitual estilo hipnótico, elegante enquanto conjugação de fotografia e trilha sonora. Nesta odisseia homérica disfarçada de blockbuster, tudo o que vemos trata mais de dilemas existenciais de nós humanos, universais extraterrestres, do que sobre exploração espacial. A beleza e a vastidão do espaço sideral em meio a alegorias e reflexões sobre perda e dor. Inesquecível.


