Quando entramos numa mata, não sabemos o tipo de plantas que podemos encontrar. E se por acaso sabemos, as surpresas do chão orgânico podem desenhar labirintos inesperados, sensações particulares. Isso sem falar sobre a possibilidade de animais e insetos de formas nunca imaginadas, em colorações inexplicáveis.
  Uma mata não é muito diferente da literatura. Quando entramos em seu território, as fendas do sentido podem jogar pedras no lago mais próximo. E a imagem aprisionada pela memória pode tanto remeter à fúria das pedras, como às leves circunferências que a água responde com resignação.
  Quando lemos um livro, da mesma maneira como entramos na mata, não sabemos como ele foi criado. Raramente o leitor tem acesso às particularidades da criação de romances, contos e poemas. Se o escritor passou anos fechado num quarto ou décadas isolado em seus próprios pensamentos, são informações que permanecem ocultas.
  Mas uma espécie de curiosidade nos leva a querer saber como e onde escritores e poetas criam suas obras. Levado por esse tipo de curiosidade, o fotógrafo Eder Chiodetto decidiu entrar nesse universo oculto da criação da escrita. Tinha como pressuposto, que os ficcionistas eram artistas que se isolavam num espaço determinado para imaginar as coisas que escreveria. Uma pessoa que fez a opção por um mundo paralelo, diferente daquele em que vive na realidade, e para isso necessitaria de um refúgio particular, uma espécie de caverna.
  Assim, Eder Chiodetto bateu na porta de dezenas de escritores e poetas brasileiros com o intenção de fotografá-los em seus lugares de trabalho. Visitou seus quartos, escritórios e bibliotecas. Também desejava colher depoimentos sobre como cada um se relacionava com a escritura, entre dores e prazeres.
  O fruto desse trabalho, desenvolvido ao longo de cinco anos, está no livro ‘‘O Lugar do Escritor’’, publicado recentemente pela Cosac & Naify Edições. A obra reúne fotos e depoimentos de 36 autores brasileiros - de João Cabral de Melo Neto a Paulo Coelho, de José J. Veiga a Luis Fernando Verissimo, de Hilda Hilst a Haroldo de Campos, de Ariano Suassuna a Cristovão Tezza.
  ‘‘O Lugar do Escritor’’ apresenta um retrato do local em que escritores trabalham. Revela a intimidade de artistas que trabalham em silêncio, quietos em seus cantos, cada um com manias específicas e peculiares. Mostra o que ocorre antes dos romances e poemas da literatura brasileira existirem. Uma obra com um belo sabor, aquele que parte do imaginário para atingir a realidade como uma nuvem que se desloca para oferecer uma visão inesperada. Longe dos livros e, ao mesmo, tempo próximo das letras. Uma agradável viagem pelo mundo da literatura antes que ela se materialize em papel e tinta. Com todas seus dramas e incertezas.



Haroldo de Campos - ''O computador não fica comigo. Fica numa outra sala a cargo da Carmen, minha mulher. Em matéria de computador sou totalmente analfabeto. Aquela tela branca brilhando... Você aperta uma tecla, tudo desaparece. Não quero mais saber. Não tenho paciência. Escrevo à mão ou à máquina. Comprei uma máquina elétrica, mas gosto muito de escrever à mão. Tenho prazer na caligrafia.''






João Ubaldo Ribeiro - ''Eu moro aqui. Esse escritório é uma bagunça, mas sei onde está tudo. Não gosto de sair de casa, detesto praia. Não tiro férias porque fico com remorso de não estar trabalhando. A solução seria fazer do trabalho uma diversão. Mas não é fácil. Me chateia ter que escrever. Estou sempre atrasado. Quanto mais escrevo, mas atrasado fico.''





Hilda Hilst - ''Me fechei nesta casa aos 33 anos para criar uma obra literária. Era o auge da minha beleza. Reneguei minha agitada vida social, namorados, família, tudo. Foi uma atitude radical. Logo ao acordar, me mantinha fechada com a máquina de escrever em meu quarto. Só me liberava para sair de lá após escrever no mínimo quinhentas palavras. Alguns dias eram terríveis porque não conseguia escrever e saía do quarto só no final da tarde, para brincar com os cachorros''.

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