Rubens Pileggi Sá- De Londrina
Especial para Folha2
Reprodução‘‘Rendendo aos Encantos do Amor’’, de Bernadete AmorimEsse final de século trouxe à tona a especialização do conhecimento segmentado, atingindo também o conceito de arte, como se fosse possível existir uma arte que atendesse a um interesse específico, em detrimento às questões gerais da arte, que, por definição, está além das fronteiras e guetos. Arte negra, arte gay, arte revolucionária, de periferia, feminista, ou dos Gaviões da Fiel, não são sinônimos de qualidade somente pela sua especificação.
É certo que até há bem pouco tempo atrás a arte era exclusivamente dominada pelos homens, mas nem se discutia se isso era machismo ou não. Os impressionistas, por exemplo, com todas as suas questões de liberdade dos padrões clássicos e acadêmicos, fecharam os espaços para as mulheres que podiam se destacar em seu grupo. Camile Claudel e Frida Kahlo tiveram que viver à sombra dos mitos de Rodin e Rivera até que a história as resgatasse.
A primeira mulher a quebrar a objetividade masculina na arte, com seu cânone programático, sua linha evolutiva, sua certeza de exatidão geométrica, foi a alemã Eva Hesse (1936/1970), que aprendeu como é que se fazia aquilo com os homens, para depois colocar intuição, subjetividade e desejo, onde as formas eram todas quadradas.
Entre nós, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral foram as pioneiras a se destacar como artistas, embora seus trabalhos estejam ligados aos valores que o mundo dos homens elegeu, o que não as poupou do preconceito, principalmente Anita, que recebeu duros ataques contra sua obra, em 1917, com a clara intenção de atingir sua pessoa.
Foi com Lygia Clark (1920/1988) que o espírito feminino realmente avançou território. Com seus trabalhos sensoriais, de percepção corporal, intuição e resgate dos mitos pessoais, essa brasileira ajudou a revolucionar o comportamento dos estudantes da Sorbonne, na Paris dos anos 60. É impossível falar de arte contemporânea hoje, em qualquer lugar do mundo, sem falar de sua obra.
Claro que hoje em dia o papel que a mulher desempenha em todos os segmentos da sociedade é muitas vezes superior ao do homem, embora o sistema de produção ainda esteja voltado para atender às necessidades dos padrões masculinos.
A novíssima geração de mulheres artistas, como Mônica Rubinho e Leya Mira Brander em São Paulo, ou a mineira Rivane Neuenschwander, prova que, mais do que a afirmação de suas identidades femininas, elas conseguem contaminar também, com muita saúde, o trabalho dos homens, que passam a incorporar certos procedimentos que até então lhes passavam despercebidos.
A exposição que termina amanhã no Cine Ouro Verde, da curitibana Bernadete Amorim, que ganhou um prêmio recentemente no Salão de Londrina, confirma o lugar da mulher no campo artístico. Bordando, costurando, tecendo, usando materiais do universo feminino, como véu de noiva, paninhos de prato, flores de plástico, ela faz dos corações que cria e das marcas que a memória guarda - locais íntimos de sua experiência - um inventário paradoxal entre a obsessão perversa da espera e o prazer delicado que procura cúmplices em sua subjetividade. Como uma flor que, ao ser machucada, exala perfume.
A arte não é mais um território árido, que tem como finalidade superar determinadas marcas, como se fosse uma disputa para ver quem será o próximo a ser sacrificado como herói no Olimpo dos Deuses. E graças a alma feminina, tudo tem se tornado mais humano e prazeroso.

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