O escritor que não silenciou
Vinte anos depois da
morte de Osman Lins,
sua obra permanece atual
Hugo Almeida
Agência Estado(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)Osman Lins:
Um projeto
criativo
tão rico,
tão
vigoroso
e tão
coerentemente
realizadoAgência Estado
Hoje faz 20 anos da morte de um dos grandes escritores brasileiros: Osman Lins. Sua obra, inovadora, resiste ao tempo e continua a ser reeditada e estudada no Brasil e no exterior. Não sei de ninguém - salvo Guimarães Rosa - que tivesse, como ele, um projeto criativo tão rico, tão vigoroso e tão coerentemente realizado, afirma o poeta, ensaísta e tradutor José Paulo Paes.
Autor de cerca de 20 livros, entre romances, contos, peças, ensaios e artigos, Osman Lins nasceu em 5 de julho de 1924, em Vitória do Santo Antão (PE), estudou no Recife e em Paris e viveu em São Paulo de 1962 a 1978, quando morreu de câncer generalizado. Em São Paulo, escreveu e publicou a maior parte de sua obra, casou-se com a escritora Julieta de Godoy Ladeira, que morreu em setembro do ano passado, e fez doutorado em Letras na Universidade de São Paulo, defendendo tese sobre Lima Barreto. Osman deixou três filhas do primeiro casamento, em Pernambuco.
Um fato marcou a vida e a obra do escritor: ficou órfão de mãe aos 16 dias e nunca viu uma foto dela, o que é lembrado em Perdidos e Achados de Nove, Novena. Passou a ser criado pelas duas avós e homenageou uma delas na principal e mais bela narrativa de Nove, Novena, Retábulo de Santa Joana Carolina e a outra, Laura, em O Fiel e a Pedra. Trabalhou quase 30 anos e se aposentou no Banco do Brasil, sem ter feito carreira como bancário. Vivia para escrever. Muitos de seus livros, como Nove, Novena e Avalovara, reeditados pela Companhia das Letras, estão nas livrarias (veja lista nesta página).
No entanto, alguns deles, como Guerra sem Testemunhas (O escritor, sua condição e a realidade social), livro importante para quem é ou quer ser escritor, e os romances O Fiel e a Pedra e A Rainha dos Cárceres da Grécia estão esgotados e merecem reedição. O primeiro transpõe para o Nordeste a Eneida de Virgílio, e o segundo, romance-ensaio sobre um romance fictício, trata de via-crúcis de uma ex-empregada doméstica em busca de aposentadoria por invalidez. Nele, Osman Lins antecipou o drama da Previdência no Brasil e discutiu várias outras questões nacionais, como a linguagem do poder em contraste com a linguagem popular e poética. É um romance radiofônico, cheio de trechos de músicas de Carnaval.
No mesmo depoimento sobre o escritor (transcrito no livro Osman Lins: Crítica e Criação, de Ana Luiza Andrade, da Editora Hucitec), José Paulo Paes acrescenta: Este projeto se desdobra sem quedas nem extravios de O Visitante a A Rainha dos Cárceres da Grécia, trazendo para a nossa arte narrativa aquele empenho de renovação dos meios expressivos que se tem constituído na tônica da grande ficção do século XX.
Seu maior romance, Avalovara, ficou entre os mais vendidos durante vários meses e foi elogiado por gente como o escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984): Se eu tivesse escrito Avalovara não teria por que escrever em 20 anos. O professor Antônio Cândido afirma no prefácio: Avalovara representa na literatura brasileira atual um momento de decisiva modernidade. O romance, traduzido para vários países, é sobre o amor de um homem (Abel) por três mulheres e se passa no Brasil e na Europa.
Como poucos escritores brasileiros, Osman Lins dedicou a vida à literatura. Seu plano - A criação de uma obra literária que, na sua totalidade, transmita uma visão singular e intensa do universo e seja, ao mesmo tempo, a história viva da conquista dessa visão ( foi executado fielmente. Ele dizia: Realizo um trabalho que me impele em direção aos seres humanos e que de modo algum os trai ou ofende. Ao contrário: exalta-os e honra-os. Depois de aposentado no banco, Osman Lins foi professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia de Marília (SP) e escrevia artigos combativos para jornais (veja texto de Julieta de Godoy Ladeira nesta página).
Ele estreou em 1955 com O Visitante, romance várias vezes premiado, dois anos depois publicou Os Gestos, contos, e a seguir o romance O Fiel e a Pedra (1961), Marinheiro de Primeira Viagem (1963),Nove, Novena (1966), Guerra sem Testemunhas (1969).





