O paulista Marçal Aquino, um dos principais nomes da literatura contemporânea brasileira, tornou-se um consagrado roteirista a partir de adaptações que fez de seus próprios livros para os filmes do diretor Beto Brant. Ele estará nesse fim de semana em Londrina ministrando o curso ''Introdução à Técnica do Roteiro Cinematográfico'', a convite da produtora Kinoarte (Instituto de Cinema e Vídeo de Londrina) e com patrocínio do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura).

A oficina é composta por uma exposição oral dos temas e pela troca de informações e impressões com os participantes, apoiadas na exibição em DVD de trechos de filmes selecionados. As aulas ocorrerão amanhã e domingo na Escola Pró-Linguagem.

Marçal completa 50 anos este ano. Tem quase duas décadas de produção, trazendo na bagagem a conquista dos dois maiores prêmios literários do País: a 5 Bienal Nestlé de Literatura (de 1999) e o Jabuti (2000).

Com influências de literatura policial, suas narrativas trazem invariavelemnte diálogos cortantes e desenlaces surpreendentes. Publicou, entre outros, os livros ''O Amor e outros Objetos Pontiagudos'' (1999), ''Faroestes'' (2001, que teve alguns contos adaptados para o teatro pelo dramaturgo londrinense Mário Bortolotto), ''Famílias Terrivelmente Felizes'' (2003) e ''Cabeça a Prêmio'' (2003). No cinema, escreveu os roteiros dos filmes ''Os Matadores'', ''Ação entre Amigos'', ''O Invasor'', ''Crime Delicado'', ''Cão sem Dono'', ''Nina'' e ''O Cheiro do Ralo''. Além de escritor e roterista, ganha a vida como jornalista free-lancer. A seguir, leia entrevista com o autor.


Dizia-se, tempos atrás, que um dos males do cinema brasileiro era a falta de bons roteiros. Você acha que essa análise envelheceu a partir da ''retomada'' e a multiplicação de bons e grandes filmes?
Houve uma época em que o cinema brasileiro chegou a prescindir dos serviços dos roteiristas, quando não dos próprios roteiros. Essa situação começou a mudar a partir da ''retomada'', com a obrigatoriedade imposta pelo MinC da existência de um roteiro prévio para que uma produtora se credencie ao processo de captação de recursos. Isso fomentou a atividade, valorizou a figura do roteirista e hoje existe toda uma nova geração de profissionais qualificados atuando.

Salvo engano, todos os roteiros que você escreveu tiveram um livro como ponto de partida. Você tem algum interesse em escrever um roteiro original?
Um roteiro original é muito mais difícil e, por isso, quase uma raridade - e não só no âmbito do cinema brasileiro. Já escrevi um roteiro original (''Amor Sujo'', premiado no edital de desenvolvimento de roteiros do MinC em 2005), que não foi ainda filmado. É um desafio muito maior do que qualquer adaptação literária, por mais complexa que esta seja. Embora existam temas que despertem meu interesse, eu me considero fundamentalmente um escritor que escreve roteiros de vez em quando, e não um roteirista que publica livros.



Com que frequência você é convidado para ministrar oficinas de roteiro? A solicitação é maior, por exemplo, do que para realizar oficinas literárias?
Acabam me convidando para ministrar mais oficinas de roteiro do que literárias. É uma pena, mas uma coisa perfeitamente normal e compreensível, já que o cinema tem um apelo muito mais forte.

Você acompanha a produção literária de seus contemporâneos? É possível detectar alguma tendência dominante na ficção nacional?
Acompanho muito de perto a produção contemporânea. Há uma pluralidade muito grande de vozes e discursos, e caberá ao tempo, como sempre acontece, o processo de depuração, quando então se apresentam aqueles autores que vão permanecer. Mas acho que já se pode afirmar, por exemplo, que nunca na história da literatura brasileira houve tantas mulheres escrevendo - bem - ao mesmo tempo. É histórico isso.

Há quem diga, com exagero e provocação, que existem mais escritores e editoras do que leitores e livrarias no Brasil. Com quase duas décadas de produção literária, como você vê o mercado editorial do País ? Alguma coisa mudou desde a publicação de seu primeiro título?
Até por conta da exposição propiciada pelo cinema, consegui melhorar o trânsito da minha literatura junto às editoras e um pouco junto aos leitores. Mas a situação do livro no Brasil, eu não tenho dúvidas, é de absoluta indigência. É inaceitável que num país de quase 200 milhões de habitantes um livro tenha a tiragem média de 3 mil exemplares, e que pode levar anos para esgotar-se. É ridículo. Mas a gente sabe que o buraco é mais embaixo, ou melhor: mais em cima. Falta o básico no Brasil em matéria de políticas de educação, saúde e cultura. Há que se resolver isso antes de se pensar na crise da literatura.

Você já escreveu narrativas de curta e longa duração. O que faz uma idéia ou uma trama virar um conto ou virar um romance?
Esse é um grande mistério para mim. Nunca planejo antecipadamente o que vou escrever. Trabalho com uma ou duas idéias e aí encontro naturalmente o restante. Mas nunca sei se vai ser um conto ou uma novela. Prefiro assim, é mais prazeroso. Por exemplo: comecei a escrever a novela ''Cabeça a prêmio'' achando que era um conto. Quando terminei esse ''conto'', vi que existia um grande número de pendências e possibilidades que eu apenas havia esboçado no texto. E resolvi permitir que aquilo se mostrasse por inteiro.

Qual foi o último grande filme que você assistiu e o último grande livro que você leu?
Filme: ''Jogo de cena'', do Eduardo Coutinho. Livro: ''La cuarta espada'', de Santiago Roncagliolo.

Em que projetos você está envolvido atualmente?
Estou auxiliando o Marco Ricca no processo de adaptação do ''Cabeça a prêmio''. Ele vai estrear como diretor. O roteiro é do Felipe Braga, e meu papel nesse processo é esse mesmo: o de auxiliar os dois.


SERVIÇO
- Introdução à Técnica de Roteiro Cinematográfico
Quando - Amanhã e domingo, das 9h às 12h, e das 14h às 18h
Onde - Escola Pró-Linguagem (Av. Higienópolis, 174, Sobreloja - entre as ruas Tupi e Pio XII), em Londrina
Quanto - R$ 150
Mais informações - Tel. (43) 3304-0134, 9959-1476, 9902-2669, 3324-2688 e 9995-3666

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