O ESCRITOR INVISÍVEL
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de maio de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
De maneira geral, as pessoas gostam de ser fotografadas, filmadas e entrevistadas. Sair no jornal ou aparecer na televisão é encarado como um autêntico instante de glória. E a fama, mesmo que momentânea, é desejada como uma árvore deseja chuva em período de seca.
Os escritores não estão imunes a esse desejo temperado pela vaidade. Sempre estão disponíveis para entrevistas, fotografias, depoimentos e outras coisas mais. Acreditam que, isolados do mundo externo, do mundo social, os leitores nunca entrarão em contato com suas obras, e assim não serão lidos, nem admirados, e muito menos idolatrados.
Como toda regra comporta um dose de exceção, existe uma pequeno grupo de escritores que foge da fama como o diabo foge de cruz. Entre eles está o emblemático Dalton Trevisan. Mas existe um sujeito que levou a privacidade ao extremo, ao limite da radicalidade. Tornou-se a grande referência de isolamento autoral da literatura, no século 20.
Trata-se do escritor norte-americano Jerome David Salinger, mais conhecido como J. D. Salinger. Sua história curiosa, revela como a identificação do leitor com personagens e, consequentemente, com o autor, pode chegar à beira do poço da loucura. E, nesse contexto, precisa ser inundado pelas águas do maremoto da realidade.
Salinger nasceu em 1919, em Nova York. Convocado para o serviço militar, chegou a atuar como sargento durante a Segunda Guerra Mundial. Estava entre as tropas que desembarcaram na Normandia, em 1944, no ataque conhecido como o Dia D. Nesse período publicou vários contos em revistas literárias dos Estados Unidos, sem grande repercussão.
Sua grande façanha literária ocorreu em 1951, quando publicou o romance O Apanhador no Campo de Centeio. A obra apresentava um garoto vagando pelas ruas de uma grande cidade realizando uma leitura desbocada da sociedade e da existência humana. O sucesso do livro foi meteórico em um ano vendeu mais de 15 milhões de exemplares. Salinger tornou-se celebridade do dia para a noite.
Junto com a fama veio o assédio. Atordoado com tanto confete, isolou-se do mundo. Transferiu-se para um pequeno povoado do interior, cercou a casa com muros altos, trepadeiras espinhosas e arame farpado. Nunca mais colocou os pés na rua. Nunca mais escreveu uma linha de literatura. Esse isolamento, iniciado em 1953, permanece intacto até hoje. Fotografias e entrevistas suas passaram a ser disputadas a tapas por uma multidão de jornalistas, sem resultados.
Ao recusar a fama, passou a despertar cada vez mais curiosidade sobre seu pessoa. Considerado o último homem da América a manter sua vida privada, seu próprio isolamento pessoal tornou-se um mito. O fato de abandonar a literatura assim como Arthur Rimbaud colocou ainda mais lenha na fogueira de sua imagem.
Nesse processo, publicou três livros de contos. Todos constituídos por textos publicados anteriormente em suprimentos e revistas literárias: Nove Histórias (1953), Franny e Zooey (1961) e Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira / Seymour: Um Apresentação (1963). Salinger abandonou decididamente a literatura após o sucesso.
Para se ter uma idéia da dimensão que sua obra alcançou, basta dizer que o lunático que assassinou John Lennon com três tiros em 1980, declarou à polícia que havia tomado a decisão de matar seu ídolo após ler o clássico de Salinger, O Apanhador no Campo de Centeio.
Embora os quatro livros de J. D. Salinger tenham sido publicados no Brasil, é impossível encontrá-los nas livrarias todos estão fora de catálogo. A Editora Companhia das Letras, numa bela iniciativa, acaba de publicar Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira com uma nova tradução. Uma antiga edição do livro foi publicada em 1981 pela Editora Brasiliense com o título Pra Cima Com a Viga, Moçada!.
Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira, traz dois contos interligados, ambos narrados pelo personagem Buddy. No primeiro texto, conta sua maratona em presenciar o casamento do irmão Seymour, que não comparece à cerimônia deixando a noiva chorando na escadaria da igreja. No segundo texto, o mesmo narrador apresenta a trajetória literária de Seymour em sua admiração pela poesia oriental. Vale dizer que vários contos de Salinger, em seus três livros do gênero, estão interligados através dos mesmos personagens.
Seymour, por exemplo, filho mais velho de uma família de atores, é um jovem prodígio à beira da iluminação zen-budista que acaba dando um tiro na cabeça aos 31 anos de idade. Seus vários irmãos se encarregam de tentar relatar o que, e como, era Seymour. O próprio nome Seymour remete a um jogo com as palavras see more, do inglês ver mais.
Não seria exagero dizer que os contos de Salinger presentes em Nove Histórias, Franny e Zooey (ambos publicados pela Editora no autor na década de 70) e Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira não estão à altura de O Apanhador no Campo de Centeio (também publicado pela Editora do Autor). A originalidade e o tom empregados pelo escritor em seu romance mais famoso é algo único. Uma abordagem que leva os olhos para caminhar empenhados na descoberta da ironia do mundo à nossa volta.
Salinger, fiel aos seu princípio de invisibilidade, permaneceu completamente protegido até 1993, quando sua casa pegou fogo. No acidente, precisou sair da residência entre caminhões do bombeiros e jornalistas. Mesmo assim, ninguém conseguiu arrancar uma única palavra de sua boca.
O narrador de O Apanhador no Campo de Centeio, o lendário garoto chamado Holden Caufield, deixou registrado em seu relato as seguintes palavras: Juro por Deus que, se eu fosse um pianista, ou um autor, ou coisa que o valha, e todos aqueles bobalhões me achassem fabuloso, ia ter raiva de viver. Não ia querer nem que me aplaudissem. As pessoas sempre bateram palmas para as coisas erradas. Se eu fosse pianista, ia tocar dentro de um armário. O fato é que Salinger escolheu permanecer recolhido dentro de um armário e ninguém tem nada a ver com isso. O máximo que alguém pode fazer é ler seus livros, nada mais. A solidão também pode ser considerada um dom, e o exílio da literatura uma escolha.
Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumieia e Seymour: Uma Apresentação - De J. D. Salinger, Editora Companhia das Letras, tradução de Jorio Dauster, 184 páginas, R$ 23,00.


