José Cândido de Carvalho ficou conhecido no meio literário brasileiro como um escritor de apenas uma obra representativa: ‘‘O Coronel e o Lobisomem’’. Para derrubar esse rótulo, a jornalista Lourdes May acaba de finalizar uma biografia sobre o escritor, morto em 1989. Em ‘‘José Cândido de Carvalho: O Escritor de Letras Redondas’’, a ser lançado pela Revan até o final do ano, Lourdes destaca a importância do autor de ‘‘O Coronel e o Lobisomem’’ para a literatura brasileira. ‘‘Foi ele quem melhor expressou o regionalismo na literatura’’, avaliza.
O regionalismo expresso nos neologismos da obra mais importante do escritor teve tanta repercussão que o novelista Dias Gomes foi acusado por José Cândido de plágio em ‘‘O Bem Amado’’. ‘‘José Cândido dizia que Dias Gomes havia vampirizado suas expressões’’, relembra Lourdes.
No livro, Lourdes May destaca também algumas peculiaridades do escritor. ‘‘Ele era um jornalista que não gostava de ser notícia’’, afirma. A aversão à promoção fica evidente em relatos apresentados no livro. ‘‘São raríssimas as fotos e entrevistas de José Cândido’’, enaltece Lourdes, que levou quatro anos para terminar a pesquisa.
Como foi feita a pesquisa para escrever a biografia?
Lourdes May - Trabalhei com José Cândido na revista ‘‘A Cigarra’’, dos Diários Associados, em 1966. Por isso, conhecia um pouco o lado pessoal dele. Mas, para montar sua trajetória profissional, recorri a jornais e revistas desde 1939, quando ele escreveu o primeiro romance, ‘‘Olha Para o Céu, Frederico!’’, até 1989, quando ele morreu. Também pesquisei nos arquivos da Academia Brasileira de Letras, da qual virou membro em 1974. Mas em todos senti dificuldade, pois existiam poucas informações. José Cândido nunca gostou de dar entrevistas. Só mesmo quando viajei para Campos, no Norte Fluminense, onde ele nasceu, consegui mais informações.
Por que José Cândido, mesmo sendo jornalista, não gostava de aparecer na imprensa?
Lourdes May - Ele era avesso à promoção pessoal e badalações. Não gostava nada sobre sua vida. Por isso, encontrei muitos dados equivocados sobre ele. Na biografia da Academia Brasileira de Letras, por exemplo, a data de nascimento está como 15 de agosto de 1914. Na verdade, foi 5 de agosto e ele só foi registrado nove dias depois.
O que mais surpreendeu você durante as pesquisas?
Lourdes May - Ele era muito reservado em relação à vida pessoal. Mas na pesquisa descobri pequenas coisas, como o jeito mulherengo e a completa desorganização com o dinheiro. Numa época, ele chegou a assinar promissórias em mais de cinco bancos diferentes.
O autor Dias Gomes garantiu em uma entrevista que não plagiou ‘‘O Coronel e o Lobisomem’’ ao escrever a novela ‘‘O Bem Amado’’. O que José Cândido escreveu a respeito?
Lourdes May - No começo, José Cândido se mostrava indiferente com o transcorrer dos episódios de ‘‘O Bem Amado’’ na televisão. Depois, essa indiferença se transformou em irritação. Ele dizia que o personagem Odorico Paraguaçu, de ‘‘O Bem Amado’’, era uma caricatura do coronel Ponciano de ‘‘O Coronel e o Lobisomem’’. Quando Dias Gomes, ao ser entrevistado num programa de tevê, declarou nunca ter lido a obra do escritor campista, José Cândido decidiu escrever um texto na revista ‘‘A Cigarra’’. Com o título de ‘‘Vampiro de Peruca’’, o escritor denunciou a vampirização de sua obra.
José Cândido é conhecido como escritor de uma obra só, ‘‘O Coronel e o Lobisomem’’. Como você analisa isso?
Lourdes May - Em ‘‘O Coronel e o Lobisomem’’, José Cândido rompeu de forma radical com os parâmetros que até então enquadravam a narrativa brasileira. Ele criou uma nova linguagem ao utilizar vocábulos e expressões regionalistas grafados com fidelidade. Assim surgem palavras como vingancista, descomparecer e desesquecido. ‘‘O Coronel e o Lobisomem’’ pode ser considerado, junto com ‘‘Grande Sertão: Veredas’’, de Guimarães Rosa, e ‘‘Quincas Borba’’, de Graciliano Ramos, uma das obras mais significativas da literatura brasileira.

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