Paulo Polzonoff Jr.
De Curitiba
Especial para a Folha2
A Albânia é o país mais pobre da Europa. Espremida entre os mares Adriático e Jônico e os Alpes Albaneses, sempre foi uma nação conflituosa. Uma população de apenas 4 milhões de habitantes se digladia há séculos pela supremacia das duas religiões que dividem o país: o islamismo e o cristianismo. Não bastasse, a Albânia foi, neste século, um dos países mais afetados pela Guerra Fria porque, apesar de ter-se mantido fiel à doutrina comunista, rompeu com a então União Soviética na década de 60 sem, no entanto, se aproximar um só milímetro dos EUA. Só na década de 90 a Albânia começou o processo de redemocratização, cujos efeitos colaterais foram o florescimento de uma máfia poderosa e o crescimento geométrico da miséria.
Pois foi neste ambiente hostil que cresceu e se desenvolveu uma das literaturas mais espetaculares do século 20, cujo patrimônio se resume a um nome: Ismail Kadaré. Escritor de uma língua obscura, o albanês, que divide os pântanos e montanhas de sua terra natal com mais dois dialetos, o gheg e o tosk, Ismail Kadaré construiu, mesmo sob a pressão de um dos piores regimes totalitários do século, personificado no ditador Enver Hoxha, uma obra lida em mais de 40 idiomas e de forte apelo universal. Não é à toa que Kadaré foi indicado inúmeras vezes para o Prêmio Nobel de Literatura. Ele é a maior prova de que, para um escritor de talento, não há barreiras.
Ismail Kadaré nasceu na pequena cidade de Gjirokastra, no sul da Albânia, em 1936. Filho de um funcionário dos correios, estudou Letras e Filosofia na Universidade de Tirana. No final dos anos 50, com seu país sob domínio soviético, foi para Moscou concluir seus estudos literários no Instituto Gorki. Teve de interromper os estudos quando Enver Hoxha rompeu relações com a URSS. Já era, então, um escritor bastante popular em seu país, com coletâneas de poesias publicadas.
Foi quando ele enveredou pelo romance que começaram os problemas. Seus livros – quando não eram proibidos por decreto, o que aconteceu com quatro deles, ‘‘Concerto no Fim de Inverno’’, ‘‘O Palácio dos Sonhos’’, ‘‘O Monstro’’ e ‘‘Luar’’ – eram legados ao limbo pela proibição de qualquer referência na imprensa albanesa.
Mesmo sob repressão, Kadaré jamais abandonou seu país. Sentia-se peça-chave na luta pela democracia. Em 1985, com a morte do ditador Enver Hoxha, que governava desde o término da Segunda Guerra Mundial, Kadaré teve uma passagem relâmpago pela política, tendo sido eleito vice-presidente da Frente Democrática. Em 1990 Kadaré surpreendeu seus conterrâneos se auto-exilando na França, onde reside desde então.
Ismail Kadaré é um escritor de um país que sempre viveu dicotomias: oriente/ocidente, islamismo/cristianismo, capitalismo/comunismo. É absorvendo a alma conflituosa do povo albanês que Kadaré constrói suas histórias. O romancista não aceita rótulos: não é nem um escritor político, balcânico, tampouco se diz adepto do realismo mágico de Gabriel García Márquez, como querem alguns críticos. Sua literatura se baseia na forte tradição oral de seu povo e é sempre habitada por mitos e personagens históricos de um passado muito remoto, cujos ecos nos chegam até hoje. É a partir da história dos tempos imemoriais que Kadaré analisa a imutável história da Humanidade.
A obra de Kadaré adquire um caráter universal, razão de seu sucesso no mundo todo, pela idéia da imutabilidade da História. Para Ismail Kadaré, um conflito entre aldeões no século 14 pode muito bem explicar os ataques aéreos a Kosovo ou o eterno conflito árabe-palestino.
As obras de Ismail Kadaré disponíveis em português são: ‘‘Abril Despedaçado’’, ‘‘Concerto no Fim do Inverno’’, ‘‘Dossiê H’’, ‘‘O Palácio dos Sonhos’’, editados pela Companhia das Letras, ‘‘Três Cantos Fúnebres para o Kosovo’’ e ‘‘A Ponte dos Três Arcos’’, editados pela Objetiva.

mockup