Servindo como um retrato que expõe as várias facetas e a complexidade artística de Francis Hime - um dos mais importantes músicos da MPB -, a gravadora Biscoito Fino acaba de lançar o DVD ''Francis Hime - O Tempo das Palavras'' e o CD ''Concerto para Violão e Orquestra''
Não se deixe enganar pelo personagem em comum As duas obras são, em gênero e grau, completamente diferentes: enquanto o DVD serve como uma lembrança das trilhas sonoras marcantes na carreira de Hime (contando com os extras de um encontro entre o compositor e os cineastas com os quais trabalhou), as músicas do CD, executadas pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, nos apontam para o futuro das composições do pianista, que inova o melhor de sua própria receita: a combinação do popular e do erudito
O compositor - e cantor, pianista e maestro - carioca começou os estudos com piano clássico ainda na infância e, depois de morar por alguns anos na Suíça, começou um relacionamento duradouro com a música popular na década de 60 ''Na verdade eu queria ser engenheiro Me formei em engenharia exatamente porque, na época, eu pensei em ter uma carreira mais sólida do que a de músico'', brinca o compositor que, em seus 18 discos e 40 e tantos anos de carreira, acumulou no currículo prêmios importantes e parcerias com ícones da MPB e do cinema nacional - dentre eles Vinicius de Moraes, Chico Buarque e o cineasta Bruno Barreto ''De uma maneira ou de outra, eu trabalho sempre com uma constante construção'', reflete
E foi assim, tijolo após tijolo, que Francis Hime evoluiu sua musicalidade Influenciado pelo convívio com personagens de uma geração ilustre da cultura brasileira, logo o instinto musical do compositor o levou para além do território da MPB, explorando direções não tão convencionais ''Eu sempre tive um interesse muito forte pelo cinema Teve uma época em que pensei em me dedicar exclusivamente para a composição de trilhas de filmes'', relembra Hime, que já musicou filmes como ''Marília e Marina'', de Fernando Goulart, e ''Lição de Amor'', de Eduardo Escorel, pelo qual ganhou uma Coruja de Ouro e um Kikito em Gramado ''O trabalho do músico que compõe uma trilha sonora é o de examinar a cena, e com isso captar o tipo de sentimento que ele deseja suscitar no espectador O cinema e a música são duas artes que interagem'', explica
Sem nunca tirar os olhos da relação íntima que enxerga entre música e imagem, Francis Hime não abandonou suas origens clássicas Trabalhando como compositor de peças de câmara e sinfônicas, o pianista/maestro sempre demonstrou uma apreciação especial pela música erudita Um fruto importante desses estudos ficou pronto em 1986, quando Hime compôs a sua ''Sinfonia nº 1'', regida por ele mesmo em 1993 ''Sempre gostei muito de orquestras, e cada vez mais vou adquirindo um gosto especial por elas'', explica o compositor, que busca desenvolver para o futuro outros projetos nessa direção, alternando o clássico e o moderno
Os dois novos lançamentos do músico, que atinge seu auge criativo aos 71 anos, revelam um lado menos conhecido de um dos principais protagonistas da MPB Francis Hime tem como característica uma sonoridade que transita entre diferentes mundos, e que assume seus riscos na fronteira de um território inexplorado O maestro é hoje um importante - e raro - expoente da moderna música brasileira, e sua bela trajetória musical serve para comprovar que, algumas vezes, a vida é a própria arte, e vice-versa

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