Entra na última semana a temporada do espetáculo ‘‘Nunca’’, do Ballet de Londrina, no Circo Funcart. ‘‘Nunca’’ traz a assinatura de Leonardo Ramos e retrata o amadurecimento e o apuro técnico corporal da companhia londrinense. A expressão erótica presente em toda a obra é resultado de um desafio existencial. Mas o erotismo serve como discurso político para um período em que o Ballet de Londrina viveu momentos de agonia, diante de uma política cultural do município exterminadora. A resposta foi uma obra lúdica que transita pelo terreno proibitivo do desejo, do afeto e do erotismo. Leonardo Ramos, como um animal acuado e enraivecido, preparou o ataque, se valendo do instinto e exorcizando suas mazelas.
Pensar que o homoerotismo presente em alguns poucos momentos pode despertar desejos reprimidos ou influenciar a platéia jovem que frequenta às apresentações é uma tentativa de ressuscitar discursos caducos. Leonardo Ramos elevou o erotismo e a sexualidade num mesmo patamar que outras necessidades, sem resvalar na vulgaridade.
A iluminação básica de ‘‘Nunca’’ é um desvio para o vermelho, a cor que não faz concessão e vem referendar a idéia do balé político da companhia londrinense. Na miscelânea sonora pós-modernista tudo cabe e nada pode servir de regra. Os discursos políticos desconexos e ininteligíveis inseridos na trilha sonora passam como um rio sob a ponte, fazendo um dueto com as composições dos londrinenses Henrique Bittencourt e Marco Tureta. A música remete à dinâmica da vida urbana e expressa estados alterados da consciência, representando realidades emotivas, ideológicas e espirituais.
Em ‘‘Nunca’’, o ritmo obsessivo se contrapõe aos movimentos sutis. A utilização de Piazzola abre os canais para o passional, enquanto que Chopin resultou numa desconstrução do clássico, tirando-o do cárcere, que parecia ser eterno.
Na poética do estranhamento, a dança cênica ainda baila na pré-história. Agora que acontecem os primeiros grunhidos, as primeiras palavras e frases soltas. O movimento do olhar quer penetrar além da quarta parede. Com a dança cênica, a auto-imagem do bailarino começa a ser remodelada com a possibilidade de ser um intérprete por inteiro. Isso vem somar ao movimento pensado, ensaiado. Esse período transitório em que a dança mimetiza preceitos do teatro pode ser visto como uma metáfora de um navio chegando ao porto. É possível vê-lo imponente, mas ainda não foi jogada a âncora.
Justamente na convergência entre teatro e dança cênica que reside o ponto de resistência no Ballet de Londrina, que irá verticalizar o trabalho a partir do momento em que o lado cênico for repensado. Trabalhar conjuntamente técnicas de preparação de ator com a dança, não caracteriza uma invasão de uma área sobre outra, mas reforça os pontos de interseção. A cada trabalho, a companhia de Londrina vêm abrindo brechas para as possibilidades teatrais da dança contemporânea, abandonando os maneirismos gestuais e expressivos estereotipados.
O Ballet de Londrina figura entre as mais respeitadas companhias brasileiras de dança e traz referências altamente positivas para a arte local (rústica e tradicionalmente de oposição) abrindo possibilidade de despertar novos talentos na platéia. ‘‘Nunca’’ deve despertar a vocação em outros bailarinos em potencial que, muitas vezes, chegam ao teatro guiados pelas mãos do acaso.
Sem recursos, o Ballet de Londrina passou os últimos quatro anos próximo de extinguir todos os sonhos e anos de trabalho. Isso implicaria na perda de identidade, no decréscimo da auto-expressão e na menor capacidade para o prazer. Leonardo Ramos bradou contra a hostilidade apresentando a afeição como resposta e escrevendo em forma de movimento que, na maioria das vezes, o poder é antagônico ao prazer.
‘‘Nunca’’, com o Ballet de Londrina. Direção Leonardo Ramos, de hoje até domingo, às 21 horas, no Circo Funcart (Rua Souza Naves, 2380, Londrina). Ingressos a R$ 6,00 e R$ 3,00 (estudantes, maiores de 65 anos e contribuintes da Funcart).

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