O espetáculo ‘‘Da Arte de Subir em Telhados’’, com o Armazém Companhia de Teatro, cumpre curta temporada em Londrina até o próximo domingo. Com esse espetáculo, já premiado no Rio de Janeiro, a dramaturgia faz um trajeto em busca das emoções do passado, amparado em pesquisa sobre o binômio delicadeza e crueza.
Num ritual inusitado, quatro amigos sobem num telhado e tentam exumar as lembranças do amigo morto, Remédios. Esse conflito é protagonizado por Das Dores (Patrícia Selonk) que após a morte do irmão persegue o desejo de morte. Mas Das Dores exibe uma fraqueza pela vida. Eles caem dentro do casarão, que cenograficamente é um matadouro (que lugar mais sugestivo para se desejar a morte?). É no matadouro habitado pelos bufões inquisidores Trap (Simone Mazzer) e Tuim (Marcos Martins) que o sentimento de luto é posto à prova.
A obsessão em seguir Remédios (Ricardo Grings) morto é o prosseguimento do apego às ilusões. A primeira ilusão correspondia à paixão platônica e incestuosa pelo irmão. A segunda, acalentava o desejo de morte. Os personagens Maria (Simone Vianna); José (Fabiano Medeiros) e Frederico (Sérgio Medeiros) são satélites da ilusão e do medo de Das Dores. O que encontrar lá fora? Remédios saiu para o mundo e se desiludiu, perdeu o brilho nos olhos.
‘‘Da Arte de Subir em Telhados’’ emociona pela devoção patética da personagem Das Dores pelo irmão e diverte com a dupla clownesca, no jogo cômico/cínico. Mas o efeito predominante é o da reflexão. Um dos destaques da peça é a cena em que Das Dores tenta se matar e Tuim a incentiva. ‘‘Vê-se que o senhor entende pouco de mulheres’’. A cena é representativa da verticalização do espaço cênico, contrapondo à horizontalização das emoções. A parceria entre o cenógrafo Gelson Amaral e Paulo de Moraes mais uma vez apresenta o descontentamento com o espaço convencional. O figurino ‘‘invisível’’ e clean do colaborador habitual do Armazém, João Marcelino, está integrado à proposta cênica, não competindo com o todo.
Os autores Paulo de Moraes e Maurício Arruda Mendonça, no limiar dos 40 anos, procuraram no aconchego das lembranças da infância um refúgio para os questionamentos inevitáveis dessa fase. Mantêm um tom de conversa íntima, mas suplantaram o possível ensimesmamento que esse retorno pudesse causar. O texto por vezes se esgarça. Poderia ser mais enxuto. Percebe-se nitidamente esse estiramento do texto após o retorno do falso morto, Remédios, momento em que a história decai. Apesar de o final ser otimista, retirar o entulho acumulado não significa que os impulsos, desejos e decisões cultivados desapareçam.
Paulo de Moraes se mostra mais sereno e introspectivo na direção e na segunda parte movimenta com teatralidade a ação. Nas cenas em que Simone Mazzer e Marcos Martins participam, ele obtém maior cumplicidade com a platéia. Simone Mazzer porque desvenda a musicalidade do texto, enquanto que Marcos Martins é o mais vigoroso e comunicativo do elenco.
Dos atores da ‘‘velha guarda’’ do Armazém, percebe-se um depuramento da chamada teatralidade do corpo, quando coordenam a técnica corporal com a expressividade vocal, principalmente com a atriz Patrícia Selonk, que pontifica o elenco com a intuição e a sensibilidade sob controle. Já os atores Sérgio Medeiros e Fabiano Medeiros sufocaram o lado emocional quando optaram em colocar a voz em decibéis acima ao do resto do elenco. Isso sinaliza uma dose excessiva de ansiedade desses atores.
O personagem Remédios tem um perfil traçado pelos amigos durante o desenrolar da peça. Os argumentos que levaram Remédios a sumir são frágeis e desfocados. Para agravar, o ator Ricardo Grings não atingiu a densidade dramática capaz de transpor os limites do texto. Sem igualar ao choque estético de ‘‘A Ratoeira é o Gato’’, de 1993, ‘‘Da Arte de Subir em Telhados’’ é uma encenação de visual apurado em que através do canal emotivo das lembranças, quatro amigos provocam reflexões sobre questões existenciais, como as relações baseadas na ilusão e medo de desafiar o mundo. Essas questões, no entanto, não apagam o facho de luz otimista da chamada geração perdida, que nessa peça diz o que sente.
Serviço: ‘‘Da Arte de Subir em Telhados’’, de Paulo de Moraes e Maurício Arruda Mendonça, direção de Paulo de Moraes, até dia 14 de abril (domingo), às 21 horas, no Galpão da Av. Leste-Oeste esquina com Av. Rio Branco. Ingressos à venda somente no local a R$ 10,00 e R$ 5,00 (estudantes).

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