O epílogo extra-terrestre de Belle de Jour
Foi sem dúvida um ''happening''. Mais do que isso: foi o filme mais abusado, mais deliciosamente decrépito, mais simpático, descarado e extra-terrestre exibido fora de concurso na recente edição do Festival de Veneza, mês passado. Tinha alguém que estar com 98 anos, e além disso ser também Manoel de Oliveira para realizar, com uns trocados e meia dúzia de amigos, alguma coisa parecida com um epílogo de ''Belle de Jour'', a cultuada obra-prima do catalão maldito Luis BuÀuel.
''Belle Toujours'' é uma peça localizada numa área cinzenta entre o drama e a comédia, com pouco mais de uma hora (precisamente 63 minutos). Dois dos personagens de ''Belle de Jour'', realizado em 1967, estão de volta com o peso dos anos. Ela, Sevérine, agora é Bulle Ogier, já que Catherine Deneuve não teve perspectiva artística e histórica, e se recusou a participar do jogo de Oliveira. Ele, Husson, o grande libertino, é o mesmo Michel Piccoli que frequentava o bordel de Sevérine, a desejava mas nunca a possuiu - e a vingança teria sido a revelação ao marido.
O reencontro se dá 38 anos depois. Ele é alcoólatra. Ela é uma senhora, viúva, arrependida de suas velhas traquinagens masoquistas e em vias de ingressar num convento. Ela nunca soube se o marido (Jean Sorel, no filme de BuÀuel) teve conhecimento de suas aventuras vespertinas no bordel, através das possíveis inconfidências de Husson. E este agora se oferece para contar a verdade a Sevérine, isto é, se disse ou não disse ao marido, que no filme de quatro décadas atrás terminava entrevado numa cadeiras de rodas.
A revelação ocorrerá durante um jantar na suíte de um hotel.
Com atores na terceira idade, mas em pleno brilho (o requinte de sadismo de Piccoli não teve competidores em Veneza), móveis antigos, poucas luzes, câmeras estáticas e um texto como sempre elegante, o sempre coerente e irreverente Manoel de Oliveira permanece fiel a si mesmo, não tenta imitar BuÀuel e faz uma inesquecível homenagem ao mestre surrealista.
Sem se permitir qualquer nostalgia rançosa, lança mão de alguns fetiches buÀuelianos (volta a misteriosa caixinha com o inseto zumbidor, e há um galo inesperado que cisca pelo corredor do hotel de luxo - seria a marca registrada portuguesa no quintal do surrealismo ?), brinca com o espectador como se tivesse trinta anos, sorri em cumplicidade. Por sorte dos demais competidores ''Belle Toujours'' não entrou na disputa. Caso contrário este homem, Manoel de Oliveira, na iminência do centenário em plena ação, não sairia de Veneza de mãos abanando.(C.E.L.J.)





