O ENTERRO DE DEUS
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de março de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
No leito de morte a maioria das pessoas tendem a reatar, ou reforçar, suas relações com Deus. Gesto que ilustra a idéia de que a morte estaria diretamente relacionada a Deus. Se a morte pode ser considerada um território dominado por Deus, a vida pode ser encarada como um território dominado pelos homens. Assim argumenta o escritor dinamarquês Jens Peter Jacobsen (1847-1885) no romance Niels Lyhne. E se os homens não agarram a vida com as duas mãos, ela tende a se perder como as águas de um rio fugidio.
Niels Lyhne, que acaba de ser publicado pela editora Cosac & Naify, é um clássico da literatura nórdica. Jens Peter Jacobsen foi um dos mais importantes escritores escandinavos do século 19. Botânico de formação acadêmica, seus romances, poemas e contos exerceram forte influência na literatura européia do início do século 20 em autores como Rainer Maria Rilke (1875-1926) e Thomas Mann (1875-1955). Rilke, por exemplo, recomenda em suas lendárias Cartas a um Jovem Poeta, a leitura de Jacobsen.
Praticamente desconhecido do leitor brasileiro, Jacobsen foi um tipo de escritor que não fazia apenas literatura com palavras, mas com idéias. Publicado originalmente em 1880, Niels Lyhne é a única obra do escritor dinamarquês publicado no Brasil (além de um conto e um poema presentes em antologias organizadas por Aurélio Buarque de Holanda, Paulo Rónai e José Paulo Paes).
O romance Niels Lyhne narra a história, do berço ao túmulo, de um sujeito chamado Niels Lyhne. Sua trajetória pela infância, adolescência e idade adulta é relatada de maneira analítica e ao mesmo tempo poética. Desde pequeno o herói de Jacobsen sofre de uma insaciável sede pela vida autêntica e intensa.
Sua busca transforma-se numa maratona infindável. Isso porque seu processo mental não se manifesta na ação. Incapaz de dar passos decisivos em direção à intensidade da existência que almeja, permanece patinando no mesmo local, locomovendo-se apenas pelos empurrões do destino. Na ânsia de provar a vida em seu estado pleno, escava a própria cova: Só quando a última porta se fecha à nossa frente é que se cravam em nosso peito as geladas garras da certeza, que pouco a pouco penetram, já dentro do nosso coração, a finíssima teia da esperança da qual pende a nossa felicidade. Então rasgam-se os fios dessa teia, então cai e só então é destruído o que eles antes sustentavam, e então ecoa agudo pelo espaço o grito de desespero.
Niels vive, na realidade, um desespero brando, uma desesperança que cresce ao sabor do tempo. Cada situação vivida reforça seu ateísmo. Para ele, a fé se apresenta como uma prisão da qual o homem precisa se libertar. A vida, em sua totalidade social, é uma escravidão em que Deus é o grande feitor. A felicidade, um momentâneo golpe do acaso: O castelo da felicidade, no entanto, tem alicerces de areia: com o tempo a areia começará a ceder sob os muros, talvez lentamente, talvez insensivelmente, porém inexoravelmente, grão a grão... E o amor? O amor também não é um rochedo, por mais que desejamos acreditar.
Niels Lyhne foi escrito na mesma época em que o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) proclamava a morte de Deus. Grande divulgador das teorias evolucionistas de Charles Darwin (1809-1882), Jens Peter Jacobsen reflete sobre o ateísmo de maneira existencial e ao mesmo tempo emocional. Uma negação do universo divino numa lúcida busca de liberdade. O próprio herói do romance, Niels, em várias situações, chega a violar suas teorias e levar em conta a existência de Deus. Chega até mesmo a suplicar por sua atuação no mundo dos homens, mas percebe que as coisas acontecem na realidade de modo aleatório, distantes da vontade divina.
No momento de sua de morte, Niels ouve as seguintes palavras do médico, sobre suas torturantes teorias atéias: Homens que estão para morrer não têm teorias, e é completamente indiferente que as tenham. As teorias são apenas para ser vividas, só são úteis durante a vida. Que importa ao homem morrer com essa ou aquela teoria? Acredite-me, nós todos temos lembranças luminosas e suaves da nossa infância. Já vi morrerem muitos homens e sei que sempre é um consolo despertar essas lembranças. Sejamos honestos: podemos ser o que bem quisermos, jamais conseguiremos afastar Deus do céu, nosso cérebro o imaginou lá em cima tantas vezes que ele acabou por se introduzir em nossa mente ao som dos sinos e das canções, desde que éramos pequeninos... Mesmo assim, o personagem permanece fiel a seus próprios princípios. Se por ventura receber as graças de Deus após a morte, que seja como um homem lúcido, não como um lambedor de padres e pastores.
Em Niels Lyhne, Jacobsen não prega o ateísmo puro e simples. Na verdade apresenta uma série de questionamentos sobre o assunto em relação a outros temas. Entre eles, o amor. Não o amor água com açúcar, mas aquele com sal e vinagre: A velha história do banquete de amor que não se pode transformar em pão de todo dia, continua sempre um banquete, porém mais insípido, dia a dia mais enjoativo, cada vez menos enjoativo.
Niels Lyhne De Jens Peter Jacobsen, Cosac & Naify Edições (telefone 11 255-8808), tradução de Pedro Octávio Carneiro Cunha, apresentação de Claudio Magris, 292 páginas, capa dura, R$ 27,00.


