Ele dá com ela na feira e nem acredita: - Joselina, há quanto tempo?!

Meio século, ela fala tranquila e ele: - Não digo que você não mudou, mas continua irônica...

- Não é ironia, é fato histórico. Não nos vemos desde os 19 anos e estamos em 2019...

- É – ele pousa suas sacolas cheias – Você sempre foi boa em matemática... Mas me diga, casou?

- Duas vezes, dois filhos, dois netos. E você...

- Eu... fiquei viúvo. Mas porque nunca te vi na feira?

Ela conta que mora longe dali, faz outra feira, veio visitar a filha pertinho. Aponta as sacolas dele:

- Deixa isso com algum feirante e vamos falando desse meio século! Lembra da Abigail?

A Abigail, ela baixa a voz, a Abigail ficou viúva já aposentada, daí descobriu sua própria identidade, como falou, foi viver com outra mulher e – cochicha – fazem a feira de mãos dadas!

- Mas porque você cochicha se é coisa que todo mundo vê?...

- É, mas ainda me choca ela ter esperado tanto tempo...

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. | Foto: iStock

Vão pela feira lembrando colegas e professores, rindo entre frutas e legumes, até voltarem para as sacolas dele, ela brinca:

- Nossas sacolas se encontraram – e os olhos se encontram, falando na linguagem dos olhos; aí ele lembra que sempre come um pastel, que tal?

- Porque não? A gente comeu pastéis no nosso último encontro, que você decerto não lembra, não minta, e não comeu um só, comeu três e eu dois.

Comem rindo, falando dos dois mundos, o daquele tempo e hoje.

- Foi o maior meio século da Humanidade - ele fala com celular nas mãos – Do telefonão preto ao chip com satélite.

- Então – ela lhe pega as mãos – vamos para nossas últimas décadas nesse tempo maravilhoso! Você zapeia com os netos?

Ele fala de olhar perdido: o único filho mora longe, só vê os netos pelo zap mesmo. Comem três pastéis ele e ela dois, rindo de gente olhar, então ele sussurra:

- Porque acabamos nosso namoro?

Ela balança a cabeça com olhos molhados, não lembra. Olham-se fundo, até ele perguntar se o... não sabe o nome, não virá buscar ela, as sacolas estão pesadas, não?

- Meu segundo marido morreu há uns três anos.

- A Lili – ele declama – há dois anos, três meses e sete dias.

- Então você conta os dias – ela pega as sacolas – Mas, se quiser continuar conversa, vamos até a casa de minha filha, pra saber voltar amanhã pro almoço.

Ele pisca pensamentos, ela ultimata:

- Acho que foi por isso que nosso namoro acabou, você vacilava muito. Vamos ou não vamos?

Vão juntos pela rua, as verduras dela roçando nos legumes dele, até que ela resolve passar na floricultura, pede flores próprias para comemorar meio século. Meio século do que, pergunta o florista, e ele:

- Meio século de namoro.

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