Se você traduzir as letras de algumas das músicas estrangeiras mais tocadas nas rádios hoje em dia, vai perceber que a galera fica repetindo ''pérolas'' como ''Eu sinto que esta noite será uma boa noite, que esta noite será uma boa noite, que esta noite será uma boa boa noite'', e ''Todas as solteiras/ todas as solteiras/ todas as solteiras/ todas as solteiras''.
Mesmo se compararmos às composições brasileiras que seguem à risca aquela fórmula simples de música-chiclete, ainda assim é perceptível nos compositores brasileiros um cuidado maior com as palavras que acompanham a melodia. Elevando-se o nível de comparação, então, fica muito claro por que os grandes nomes da MPB fazem por merecer o status que têm.
Mas de onde vem essa ligação tão íntima entre a palavra e a música na cultura brasileira? O documentário ''Palavra (En)cantada'', de Helena Solberg, faz uma deliciosa e abrangente investigação sobre esse processo. ''A música brasileira é a coisa mais forte que temos na nossa cultura. O que nos dá reconhecimento maior não é literatura. Se lê muito pouca literatura brasileira. Já a música não. E a nossa música é imbuída também de literatura'', comenta a diretora.
Vencedor do prêmio de melhor direção de longa-metragem documentário no Festival do Rio de 2008, o filme intercala depoimentos de 18 artistas para analisar não só o processo de composição de cada um, mas também toda a história da canção, partindo dos trovadores e dedicando uma atenção especial ao samba, bossa-nova e tropicália.
Nomes consagrados como Chico Buarque, Maria Bethânia e Tom Zé, compositores autores de livros Antônio Cícero e Arnaldo Antunes e os músicos professores-doutores Luiz Tatit e José Miguel Wisnik ajudam a aprofundar as reflexões acerca do tema. Adriana Calcanhoto, Lenine e Lirinha (do Cordel do Fogo Encantado) também têm ótimos depoimentos, mas a surpresa maior fica por conta das contundentes declarações dos rappers BNegão, Black Alien e Ferréz.
O documentário recupera ainda imagens de arquivo (algumas inéditas), como de um desfile de carnaval na Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, trechos da montagem de Morte e Vida Severina pelo grupo da PUC em 1965, Caetano Veloso, após apresentar Alegria, Alegria no festival da Record, tendo que responder por que usou Coca-Cola e Brigite Bardot em sua música, e Hilda Hilst em um encontro com Zeca Baleiro.
''Palavra (En)cantada'' não é um filme de conclusões, mas que traz hipóteses e ideias interessantes, como a comparação entre o repente e o rap. Outro mérito do longa é abordar aquela indigesta questão sobre se letra de música é poesia sem ser chato, graças principalmente à ótima declaração de Adriana Calcanhoto: ''A vida é curta demais para se perder tempo com isso''.
Helena Solberg, juntamente com Marcio Debellian e Diana Vasconcellos, conseguiu abordar a relação entre música e poesia sem soar academicista e nem cair na armadilha do didatismo. Mas ela soube também aproveitar o conteúdo de forma didática: no DVD recém-lançado pela Biscoito Fino, um disco extra traz cinco módulos especialmente preparados para serem usados em sala de aula. E o primeiro disco traz ainda, nos extras, mais de uma hora de depoimentos e canções que ficaram de fora da versão ''oficial'' mas que merecem ser vistos.

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