O ENCANTO DA ARTE EGÍPCIA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de maio de 2001
Maria Hirszman Agência Estado 
Este é o ano do Egito. Pelo menos no Brasil, já que duas das principais exposições organizadas pelos museus do País darão ao público a oportunidade de descobrir as atraentes riquezas dessa civilização antiga, que nos últimos tempos vem sendo vangloriada em várias coleções de best sellers. Curiosamente, as duas mostras vão exibir peças do acervo do Louvre, que tem mais de 60 mil objetos do Egito antigo em sua coleção. Mas longe de serem concorrentes, elas são complementares. Uma das exposições, inaugurada ontem, no Museu de Arte Brasileira da Faap, em São Paulo, apresenta um panorama amplo da produção artística realizada durante os 3 mil anos de duração da civilização do antigo Egito e a mostra que o Masp abre em julho enfocará a relação dos egípcios com seus deuses.
Realizar uma exposição como a da Faap, que resume de forma ampla as diversas características da arte egípicia, é tarefa difícil e rara. Resolvemos aproveitar esta oportunidade de trabalhar com o grande público para falar de arte e não apenas de história e civilização, afirma a curadora científica da mostra e conservadora do Louvre, GeneviSve Pierrat-Bonnefois. Para realizar esse passeio iniciático, foram selecionados objetos de diferentes dimensões, períodos ou significados. Pode-se encontrar no salão nobre do prédio universitário desde peças valiosas, como o rico sarcófago em mármore de Udjahor, uma espécie de sacerdote - que normalmente fica em exposição no Louvre, mas estava em trabalho de restauro, o que facilitou sua viagem - até pequenos objetos como um pequeno cinzel de bronze, que fogem da imagem estereotipada que se espera encontrar numa mostra como essa.
Ao todo são 56 objetos que, em conjunto, dizem muito sobre a cultura artística desse povo. Uma das características fascinantes da arte egípicia é que eles conseguem combinar uma sólida tradição com uma enorme capacidade de inovação. Como escreve GeneviSve, ao longo de 3 mil anos de história da civilização egípcia os criadores nunca deixaram de encontrar soluções novas, respeitando a perene idéia essencial subjacente da perfeita adequação entre a obra e sua função.
Logo na entrada da exposição, há uma prova dessa afirmação. Abrindo a mostra estão duas estátuas em estilos completamente diferentes, que representam a mesma situação (um casal), produzidas num intervalo de cerca de 200 anos. Não se sabe se essas esculturas foram feitas para um templo ou uma tumba, mas se sabe precisamente quem são as figuras representadas, já que os egípcios associam de maneira impressionante a imagem à escrita, utilizando textos hieroglíficos.
Outra característica interessante da arte egípcia - diretamente relacionada com o fato de que o que realmente conta não é a expressão do artista e sim a função real ou simbólica do objeto - é a absoluta desconexão entre a figura que vemos reproduzidas e o personagem que está sendo lembrado com aquele trabalho. A figura de Nebseni (o homem elegante e até feminilizado que vemos ao lado de sua esposa, Baket, logo na entrada da mostra) provavelmente não mantém relação nenhuma com o que aquele homem realmente foi. É como se os antropólogos do futuro encontrassem bonecas da Barbie e de Ken e achassem que nós fôssemos assim, ilustra GeneviSve. É exatamente esse equívoco, de confundir a realidade com a fantasia popular, que encontramos na literatura interessada em popularizar uma imagem idealizada do Egito, acredita ela.
Dessa busca ideal da imagem humana decorre uma das características-síntese da arte egípcia: o célebre perfil egípcio, que combina elementos de perfil e de frente numa mesma figura. A preocupação de criar representações de princípio, sem buscar traduzir os caracteres dos indivíduos, incitou os egípcios a reproduzir essas silhuetas ideais de modo estereotipado, escreve ela.
Da mesma forma que não há um estilo único que predomine ao longo da civilização egípcia, também não se pode afirmar que seus artistas e artesãos tenham mantido um mesmo padrão de qualidade ao longo de tanto tempo. Inevitavelmente, às fases áureas da produção artística correspondem os períodos de dinamismo e riqueza, comandados por faraós poderosos e centralizadores. É difícil identificar o autor da obra, a não ser nos casos em que o artista alcançava uma notoriedade acima da média e podia registrar na própria tumba louvores a suas realizações. É o caso de Sennedjem, que teve sua bela tumba fielmente reconstituída para a mostra.
Trata-se de uma pequena sala, escavada numa montanha em Tebas, atual Luxor, por volta de 1279 a.C, na era de Ramsés II. Todos os detalhes da obra foram reconstituídos, desde as curvas de nível da parede (originalmente a pedra da caverna foi recoberta por uma espécie de taipa e por gesso) até os mínimos detalhes das pinturas. Mesmo os pedaços de têmpera destruídos propositalmente depois da descoberta da tumba, em 1886, são exatos.
A obra, uma das grandes atrações da exposição, por recriar de maneira impressionante a magia e riqueza da arte egípcia, foi reconstituída pelos pacientes pincéis de um artista brasileiro, Valdeci de Freitas, e depois que mostra encerrar deve seguir para Paris para fazer parte de uma exposição a ser realizada no Louvre no ano que vem.


