O empobrecimento dos sambas-enredo
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domingo, 07 de fevereiro de 2010
Gilberto Amendola<br> Agência Estado 
Que lugar é esse em que o divino é sempre divinal, estrela é Maurício de Nassau e os tempos são ''imemoriais''? O mundo dos sambas de carnaval repete tanto algumas palavras que está fazendo com que os enredos das avenidas pareçam todos um só. Basta contar quantas frases como ''levanta a poeira'', ''sacode a galera'' e ''explode coração'' vão aparecer daqui até o fim da folia.
Os pesquisadores Alberto Mussa e Luiz Antônio Simas tentam desvendar as origens da crise do samba que, dizem, acabou com a harmonia entre as escolas e o público. Eles acabaram de lançar o livro ''Samba de Enredo - História e Arte''. ''Essa não é apenas uma impressão do público. Desde 1990, o samba-enredo está em uma encruzilhada. Ele perdeu o seu sentido épico e tem se transformado em uma espécie de marchinha de carnaval'', examina Mussa.
O primeiro problema estaria na aceleração da bateria. ''Ninguém consegue cantar sutilezas com esse ritmo alucinado. A poesia e a sofisticação que existiam acabou se perdendo.''
A crise, para os pesquisadores, também é temática. Em vez de explorarem os grandes momentos da história, como se fazia nas décadas de 60, 70 e 80, as escolas partem para letras sobre revolução digital, siderurgia, a história do chocolate e outros temas que buscam, no fundo, patrocinador. ''Isso pode trazer dinheiro, mas não rende bons sambas'', fala Mussa.
O compositor paulistano Osvaldinho da Cuíca acha que o samba piorou porque a música perdeu força nas agremiações. ''Hoje, estão mais preocupados com os efeitos especiais, com a pirotecnia, essas coisas que eu odeio. Não é mais carnaval, é festa junina.'' Osvaldinho vai ainda mais longe na polêmica e diz que o empobrecimento dos sambas-enredo é de responsabilidade das comunidades. ''Tem muita politicagem. Se você não é da panelinha, mesmo sendo melhor compositor, não consegue entrar'', fala Osvaldinho. O sambista também culpa os jurados pela crise. ''É nota 10 pra todo mundo. Sem nenhum critério. Poxa, se você ganha um 10 com um samba ruim, acaba se acomodando e achando que aquilo é que está certo.''
Martinho da Vila, autor do samba em homenagem ao centenário de Noel Rosa, que a Unidos de Vila Isabel defenderá neste ano, se incomoda com o excesso de exaltação. ''Isso é o melhor, aquilo é o maior... Hoje não tem mais história. É até difícil de entender do que estão falando. É só exaltação.''
Quem não quer saber de polêmica é Leci Brandão. A compositora e comentarista da Globo diz que, mesmo sem marcar época, os enredos de escola de samba sempre trazem alguma beleza. Ainda assim, faz ressalvas. ''Hoje, para o seu samba ser escolhido por uma escola, você precisa ter dinheiro para gravar um CD, investir na divulgação na comunidade, levar ônibus com torcida (nos dias de escolha de sambas).''
Como é preciso grana para bancar uma escolha, muita gente que aparece como compositor é, na verdade, patrocinador. ''Antes o sambista ia para a biblioteca fazer pesquisa. Hoje, as coisas vêm mais mastigadas e envolvem outros interesses'', diz Leci.
Beto Muniz, presidente da ala de compositores da Leandro de Itaquera, de são Paulo, que esse ano apresenta um enredo composto por nada menos do que 20 autores, explica o excesso. ''Tínhamos três sambas na disputa. Todos tinham qualidades e defeitos. Então, pegamos o pedacinho de um e juntamos com o pedacinho do outro.'' Mesmo para Muniz, o samba-enredo piorou. ''Para ganhar adeptos, o compositor fica citando, na letra da música, a bateria, a harmonia. Não em benefício do samba, mas para conseguir mais aliados na quadra.''


