São Paulo, 29 (AE) - Pode ser que "Um Copo de Cólera" não seja o grande filme consagrado no Festival de Berlim deste ano, quando foi definido por Wieland Speck, diretor da mostra Panorama, como uma das maiores contribuições à história do cinema sobre o universo masculino. Mas é um filme que você precisa ver, com certeza. O atual momento do cinema brasileiro não pode prescindir de tentativas audaciosas como a de Aluizio Abranches, por mais que tenha sido arriscado o projeto adotado pelo cineasta. Ele quis trazer para a tela, na íntegra, o universo verbal do escritor Raduan Nassar. Respeitou, até demais
o texto original, no qual introduziu apenas três modificações de palavras.
Um texto para ser lido não é a mesma coisa que um texto para ser falado. Um certo artificialismo emperra as falas de "Um Copo de Cólera", mas a teatralidade, como em Visconti, realça a força do texto. Os dez minutos iniciais são preciosos. Revelam que Abranches é mesmo um homem de cinema. Não são só as cenas de sexo entre os atores Júlia Lemmertz e Alexandre Borges. O fato de eles serem casados na vida real não explica tudo. Marlon Brando e Maria Schneider não eram casados quando fizeram "Último Tango em Paris", de Bernardo Bertolucci, nem eram casados os atores da obra-prima japonesa "O Império dos Sentidos", de Nagisa Oshima. Mais do que as sugestões de sexo quase explícito, o que impressiona é a tensão que Abranches vai criando.
Uma maneira de Alexandre Borges mover-se, de olhar, pequenos gestos que prosseguem durante o café da manhã e preparam o espectador para a agressão verbal que se segue. É um filme sobre o embate entre o masculino e o feminino, entre a razão e a paixão. Abranches buscou um equilíbrio do seu casal. O fim, quando Júlia manifesta sua ternura pelo macho adormecido, um feto imenso que ela gostaria de devolver ao seu útero, é sublime. (L.C.M.)

mockup