Mesmo entre os frequentadores assíduos de sebos há dúvidas de que o livro ou o vinil usado é um presente que vai agradar. O professor Manoel Carlos Rubira afirma que nunca deu de presente um produto comprado num estabelecimento do tipo. ''É engraçado, é um preconceito, não é? Penso que não haveria problema se eu desse um livro usado para um amigo, uma pessoa próxima. Agora, num amigo secreto no trabalho, é mais difícil. Para começar, pouca gente tem costume de ler. Você ainda tem que acertar o gosto da pessoa. E existe aquela cultura de que é necessário dar algo novo'', argumenta.
A jornalista e pesquisadora em literatura Gabriela Canale Miola concorda que existe preconceito. ''Em geral, as pessoas querem coisas coloridas, com embalagens lindas, que sejam lançamentos. É nossa sociedade que nos faz achar que tudo precisa ser novo, para poder produzir mais, vender mais e fazer o consumo continuar. Quem frequenta sebos tem outra postura, valoriza outras qualidades das coisas'', aponta ela.
A jornalista conta que tem o hábito de dar livros de sebos de presente. ''Dei 'Rosinha, Minha Canoa' (de José Mauro de Vasconcelos) para minha madrinha, que se chama Rosa, presenteei minha priminha com um livro do Monteiro Lobato que tinha ilustrações bárbaras, dei um do Carlos Nejar para um grande amigo'', relata. ''Quando o livro me lembra alguém e não é muito caro eu compro. Adoro dar livros, é um hábito meio narcísico, eu acho''.
A regra serve também na hora de comprar presentes de Natal. ''Uma vez, num final de ano, como eu não tinha muito dinheiro, comprei livros usados para quase todo mundo da minha família: mãe, tios, tias, primos, irmãos. Foi barato, com R$ 30 presenteei vários parentes'', explica Gabriela. Ela diz que Londrina tem sebos de qualidade, mas faz ressalvas.
''Os sebos daqui não são tão bons quanto os de São Paulo, Curitiba ou Porto Alegre. Têm poucas raridades, principalmente para quem estuda literatura. É muito best-seller e pouca crítica e teoria literária. Mas dão para o gasto, entende? E com paciência, disposição, tempo e faro dá para achar coisas boas'', conclui. (F.G.)

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