O elogio da idiotia
O elogio
da idiotia
Quinta seleção oficial para o dinamarquês Lars von Trier. E seu primeiro e muito aguardado filme depois de Breakind the Waves, Prêmio Especial do Júri há dois anos, em Cannes. O tema agora é a idiotia (atenção: não confundir com o sentido vulgar da palavra, a idiotice) como manifestação de deficiência mental. Simulada, no caso, como manobra de protesto. A idiotia é o centro de interesse comum de um grupo de jovens que vive comunitariamente e leva a experiência aos últimos limites, mas nunca com grande sucesso. Ao simular um quadro comum a pessoas portadoras de idiotia, os participantes vão a lugares públicos para sentir as reação das pessoas diante do que não é considerado comportamento normal.
Uma certa Karen se junta ao grupo para participar deste jogo coletivo de questionamento de valores sociais. Ela obtém conforto e compreensão, sem que nada lhe seja cobrado. Enquanto isso, o líder dos idiotas propõe a cada um dos membros passar por um teste forjando a idiotia em seus próprios ambientes - casa, trabalho, etc. Somente os mais fortes resistirão. Karen é a última a se submeter à prova suprema. Por si só, o filme provocaria reações extremadas de amor e ódio. Mas a sequência durante uma festa, que começa com nudez coletiva e termina com sexo grupal, sacudiu a Croisette. Ainda que por alguns segundos, Lars von Trier flerta abertamente com o sexo explícito.
Não se pode negar coragem aos diretores dinamarqueses que estão com filmes este ano no festival. Não pela cena sexual em si, dispensável sob todos os aspectos, mas pelos moldes apresentados pelas duas produções. Tanto Os Idiotas quanto Festa participam do chamado Dogma, uma declaração de princípios assinada ano passado em Copenhagen por Thomas Vinterberg e von Trier. Filmados em vídeo, sem filtros ou quaisquer artifícios técnicos, com orçamento baixíssimo, nenhum ator de ponta, ambições puramente artísticas. A idéia geral é o anticonvencionalismo, a imposição de um estilo próprio, original. A ousadia de trabalhar no fio da navalha entre o kitsch e a arte. Desde já candidatos a cult, o único, grande e basicamente insolúvel problema a enfrentar é: exibir para quais platéias ao redor do mundo, a não ser a dos guetos culturais. (C.E.L.J.)





