O elegante senhor dos pincéis
Elisa Marilia Carneiro
Sentado, ao ar livre, no muro de pedra do terraço de uma galeria em Curitiba, o artista plástico Juarez Machado invoca lembranças do passado. Hoje está um dia tipicamente curitibano, dos tempos em que eu morava aqui. Dia claro, com um friozinho gostoso, céu luminoso... Dá saudade daquela vida de estudante. Fazia a Escola de Belas Artes durante o dia e começava a minha carreira profissional na televisão. Eu era cenógrafo e desenhista e naquela época também começei como ator. Foi um período rico da minha vida e também muito feliz.
Cosmopolita por natureza, Juarez Machado passou pela capital, há duas semanas, para participar da exposição comemorativa dos 15 anos da Simões de Assis Galeria de Arte. De lá, ele seguiu para Joinville (SC), onde inaugura, no dia 19, o pórtico O Grande Circo, do Centreventos Cau Hansen, um megaespaço de multiuso.
Em entrevista exclusiva à Folha2, o artista plástico fala do novo tema das suas obras, da família, do cotidiano, da pintura e do mundo. A seguir os principais trechos.
Sua família teve influência na sua vida artística?
Desde pequeno, em Joinville, já vivia a arte em casa. Meu pai era
caixeiro-viajante e também um colecionador. Ele viajava muito pelo interior do Estado, comprando objetos antigos. A casa da minha mãe era uma espécie de museu. Ela trabalhava para uma fábrica de leques onde pintava a seda. Então eu nasci e fui criado num ambiente especial.
Falando um pouco mais de pintura e das artes em geral, como você definiria a arte hoje?
Para mim é muito difícil definir, mas essa dedicação à arte é a minha vida. Claro que o meu universo é o das artes visuais, principalmente a pintura. Passei todo esse inverno, em Paris, fazendo uma série de esculturas. Na verdade não é coisa nova: estou namorando de novo a minha primeira namorada. É que quando entrei na Escola de Belas Artes, aqui em Curitiba, queria fazer escultura. Só que os trabalhos que fiz agora são em bronze.
A escultura começou por uma necessidade de explorar a terceira dimensão, de ampliar os limites da pintura?
Foi mais por uma questão de ansiedade minha. Eu tenho uma casa no ateliê e às seis horas da manhã já estou lá. Neste horário, em Paris, no inverno, é noite profunda. Isso é muito angustiante para um pintor, que trabalha com a luz natural. Durante esse período, eu ficava fazendo desenhos, esticando tela, fazendo fundo, preparando tintas e com uma profunda angústia por não poder estar produzindo. Foi então que resolvi fazer também esculturas até o dia nascer e, então, passar para a pintura.
Você tem planos de se dedicar à escultura?
Sempre a pintura. Não posso passar três dias sem pintar. Viajo carregando tintas, telas e pincéis. Onde paro tenho um ateliê. Nas viagens levo quadros inacabados, que vou terminando nos lugares. Na minha bagagem não tem camisas; tem telas e quadros.
Essas viagens influenciam o produto final?
Percebe-se um clima diferente em alguns trabalhos...
Faço questão de misturar os lugares. Essa salada de informações me dá um profundo prazer. De repente é um ambiente francês, com um pedaço da praia do Arpoador, que é a vista da minha janela do Rio. Ano passado fiquei um mês e meio na casa do meu filho, em Los Angeles, e rapidamente, no terceiro dia, montei um ateliê. Então, as telas produzidas nesse período tinham interiores cariocas mais o lado de fora era alguma coisa de Hollywood.
Como começa um quadro? Você chega ao ateliê com a idéia pronta, com o desenho na cabeça?
A minha maneira de trabalhar, por causa da escola, é muito tradicional: em cavalete, em pé. Em cima de um tapete persa, limpíssimo. Sempre trabalho muito bem vestido. Posso ir a uma festa com uma calça rota, mas para pintar tem de ser da forma mais elegante e, pela herança teatral, preparo este palco para representar. Mesmo sem platéia, preciso disso para mim mesmo. O ateliê é decorado conforme o tema da série de quadros que estou pintando. Lá tem música, comidas, bebidas e flores. Sempre!
Onde você não pensa em pintura?
O único lugar onde não penso em pintura é quando vou cozinhar. Não sou um bom cozinheiro, mas gosto. Ajudo a minha mulher, Eliane, adoro quando ela me chama para ser seu assistente, mesmo que eu só saiba cortar cebolas e lavar as panelas. Mas a cozinha acaba entrando na temática da minha pintura. No ano passado fiz uma exposição em Paris chamada La Fête Continue com o culto à mesa como local de encontro e desencontro, comunhão.
Qual o caminho da arte no Brasil e no mundo? Podemos dizer que exista um?
As próprias necessidades dos artistas constroem correntes e movimentos diferentes. Senão, ficaria tudo muito chato. O mundo vai mudando conforme essas correntes. No Brasil, eu sinto que vai mudar muito, até de uma maneira econômica. Começa por uma preocupação maior com a arte como valor de moeda, investimento. Há alguns anos não havia isso, as pessoas compravam quadros para enfeitar suas casas. Eram poucos os investidores em arte. O mercado brasileiro vem no rastro do mercado internacional. Os artistas mortos ainda não têm uma cotação alta. Foi vendido há um tempo atrás um Tarsila do Amaral por um milhão e pouco de dólares. Isso é muito pouco, dentro do mercado internacional. Mas há um interesse fora, da arte sul-americana e brasileira. Mas quando se fala em arte sul-americana, o Brasil não participa muito. O que é pena. Não tem o mesmo peso que a Venezuela, Bolívia e Uruguai.
Isso é culpa de quem?
Tem de tudo. Dos artistas, dos marchands, do governo. Culpa é um monte de pequenas coisas. A palavra culpa é meio pesada. Talvez seja mais falta de oportunidade. É de não participar desses movimentos, de investir lá fora. Daí a gente acaba convivendo aqui, feliz, e não ousamos brigar lá fora por essa fatia. A discriminação que senti há 15 anos foi por ser um artista plástico brasileiro. Se fosse um músico popular teria portas abertas na hora. Se fosse um músico clássico já seria mais difícil. A música popular já tem uma tradição de prestígio. Nos outros casos, estaríamos entrando em território deles, europeus.
O que poderia ser feito?
A arte é uma coisa de herança, de tradição e cultura. Somos muito novos. O brasileiro tem de ser mais agressivo. A obrigação de ousadia é do governo, das embaixadas, dos nossos intelectuais, dos empresários e investidores, que estão lá fora, de promover uma certa elite que temos espalhada pelo mundo, culta e interessante. Não devemos vender só o que eles querem comprar: a mulata, o samba, o Carnaval, quando temos outras riquezas, guardadas, escondidas, aqui. Temos de exportar isso. Essas culpas, não quero dar ao artista. Eles já têm de pintar.
O Brasil ainda tem uma imagem negativa, no exterior?
Nos últimos dez anos, o Brasil tem sido mais respeitado lá fora. Mostravam só os problemas. Hoje, conhecem as coisas ruins, mas as boas também. E o estrangeiro tem uma profunda simpatia pelo brasileiro. O Brasil exerce uma magia - é alguma coisa dessa magia de viver que os europeus já perderam.
Para terminar, quais são as novidades para seu próximo tema?
Ando novamente apaixonado pelas pessoas do Mediterrâneo. Pela cor, pelas mulheres, as pedras. Nós temos muito do Mediterrâneo. A coisa da comida, da família, da relação com o ser humano. Estou sentindo isso. Talvez, esse seja o meu novo tema. A água como ponto de ligação entre tudo isso. Vou mergulhar com as sereias.Mesmo em uma fase de dedicação à escultura, o artista plástico Juarez Machado admite: Não posso passar três dias sem pintar
Kraw PenasJuarez Machado: A minha maneira de trabalhar é muito tradicional: em cavalete, em pé. Em cima de um tapete persa, limpíssimoReprodução/Juarez MachadoDetalhe do mural O Grande CircoNa minha bagagem não tem camisas; tem telas e quadros





