O elegante pessimismo de Saramago
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 11 de janeiro de 1999
Marcos Losnak Especial para a Folha 2 
France PresseJosé Saramago: edições brasileiras com ortografia portuguesaO ano de 1998 ficará gravado na memória da língua portuguesa. No dia 10 de dezembro último, o escritor português José Saramago recebeu, numa suntuosa solenidade na capital sueca, o Nobel de Literatura. Aos 76 anos de idade, Saramago entrou para a história como o primeiro escritor da língua portuguesa a ser laureado com o Nobel.
O grande prêmio dos escritores que recebem o Nobel - além do cobiçado cheque de quase um milhão de dólares - é verem seus livros nas mão de milhares de leitores do mundo inteiro. O Nobel, mais que um grande reconhecimento, é a maior divulgação que um escritor pode esperar para sua obra.
Aproveitando a ocasião, a Editora Companhia da Letras colocou nas livrarias uma nova obra de José Saramago, O Conto da Ilha Desconhecida. Trata-se de um livro pequeno, com uma edição bem cuidada - ilustrada com aquarelas de Arthur Luiz Piza. Traz um único e breve conto narrando a tentativa de um homem em descobrir uma ilha desconhecida.
Saramago declarou que depois de receber o prêmio, se tornou mais visível e mais audível e vai aproveitar a ocasião para continuar dizendo o que sempre disse em seus escritos. E seus escritos não são possuem nada de água com açúcar e belos dias ensolarado. Possuem sim um elegante pessimismo que procura abrir os olhos de uma civilização cega, ou que se finge de cega. Para ele, o homem, a humanidade, cometeu e continua cometendo os mesmos erros e atrocidades e não há lugar para a esperança de que esses erros deixem e ocorrer.
A literatura de Saramago não é otimista. Grande parte de suas histórias possuem uma abordagem pessimista em relação ao futuro da humanidade. Acredita que no mundo em que vivemos há muito mais razões para o pessimismo que para o otimismo.
Para melhor exemplificar suas abordagens, Saramago utiliza a imagem de uma jarra com água pela metade, colocada em cima de uma mesa. De um lado da mesa senta-se um otimista, do outro um pessimista. O otimista afirma que a garrafa está meio cheia, o pessimista afirma que ela está meio vazia. Quem está errado? Quem está certo? Trata-se apenas de uma escolha.
Como uma espécie de fábula, O Conto da Ilha Desconhecida narra a história de um homem que elege, como sentido para sua vida, a necessidade de se lançar no mar para descobrir uma ilha ainda desconhecida. Para realizar tal intendo solicita ao rei um barco para a viagem.
Depois de muitos argumentos, o rei se vê coagido a entregar-lhe uma caravela. Após muito trabalho em conseguir uma tripulação, a aventura marítima tem início. Na primeira ilha que aportam, uma ilha já descoberta e consequentemente conhecida, a tripulação abandona o barco desacreditando no sonho da tal ilha desconhecida. O homem sozinho, tendo como companhia um único tripulante, uma mulher, dá prosseguimento à sua viagem pelos mares em busca da ilha desconhecida.
Numa alusão ao mito de Adão e Eva no paraíso, homem e mulher tornam-se um casal vivendo na caravela, na realidade uma ilha flutuante. Unidos, batizam o barco, até então sem nome, pintando na proa o nome de Ilha Desconhecida: Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.
Com bela história de O Conto de Ilha Desconhecida, Saramago oferece um amplo leque de metáforas. Uma delas sugere que a humanidade é uma ilha desconhecida, em alto mar, à procura de si mesma.
Uma característica básica das obras de José Saramago é a utilização de uma linguagem onde a vírgula é usada como instrumento de múltipla pontuação. Conferindo à vírgula valores alheios às normas ortográficas, realiza diálogos entre duas ou mais vozes apenas fazendo uso de vírgulas. Situa tempo diferentes e focos narrativos distintos através da vírgula. Tudo com uma completa nitidez. Outro opção do autor é exigir que as edições brasileiras de seus livros sigam a ortografia vigente em Portugal (leia texto nesta página).
Independente de ter sido agraciado com o Nobel ou não, José Saramago é um escritor que deve ser apreciado por um maior número de leitores. É um tipo de artista que possui algo a dizer - e diz da melhor maneira possível. Entre os livros de sua autoria, destacam-se Ensaio Sobre a Cegueira, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Todos os Nomes, Objecto Quase, O Ano da Morte de Ricardo Reis, História do Cerco de Lisboa e Jangada de Pedra.
O Conto da Ilha Desconhecida de José Saramago, Editora Companhia das Letras, aquarelas de Arthur Luiz Piza, 63 páginas, R$ 16,50.


