O efêmero e o eterno
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de dezembro de 1996
Rosângela Vale 
Há tempos o mundinho fashion não falava tanto sobre arte. A mania começou com a grife italiana Prada no ano passado, espalhou-se pelo mundo e atingiu em cheio as coleções brasileiras. Nos desfiles do Morumbi Fashion, em julho, os motivos geométricos ganharam as passarelas, numa clara referência a pintores e artistas modernistas, como Sônia Delaunay e Piet Mondrian. A idéia de unir arte e moda deu tão certo, que a próxima edição do evento, em fevereiro, vai ser associada ao nome de um dos mais renomados pintores brasileiros: Cândido Portinari.
As salas do prédio da Bienal e do MAM, onde serão realizados os desfiles, receberão os nomes das obras, gravuras e telas do pintor. Além disso, uma trupe de estilistas apresentará modelos inspirados nos figurinos do ballet Yara, que foram desenhados por Portinari em 1946. Retratando as crenças indígenas e os tipos brasileiros, o Yara era dançado por bailarinos russos e foi montado no Teatro Colón de Buenos Aires, no Metropolitan de Nova York e nos Teatros Muncipais de São Paulo e do Rio de Janeiro.
O design e as cores das roupas são absolutamente atuais; os estilistas ficaram impressionados, diz a proprietária da Portinari Licenciamentos, Dora Kaufman. Um preview desse trabalho será mostrado na próxima semana, em São Paulo, durante o lançamento da Cartela de Cores Cândido Portinari, que vai definir os tons para o verão 97/98. Durante o evento, também serão lançados tecidos com estampas desenvolvidas a partir das obras do pintor.
A aproximação entre esses dois tipos de manifestações culturais tão diferentes - a arte, com sua vocação para a eternidade, e a moda, efêmera por essência - é uma tendência internacional. A Bienal de Florença, na Itália, aberta em setembro, incluiu trabalhos de estilistas de vários países. Para a 23ª Bienal Internacional de São Paulo, que termina neste domingo, a M. Officer, em parceria com a Embaixada dos Estados Unidos, viabilizou a participação do americano Sol Lewitt, considerado o pai da desmaterialização da arte, justamente o tema da Bienal.
As estrelas de Lewitt ocuparam 300 metros da parede do último andar do Pavilhão do Parque do Ibirapuera, e serão apagadas logo que termine a mostra. Mas ficam eternizadas nas camisetas que ele desenvolveu exclusivamente para a coleção de verão da M. Officer.
Esse flerte da moda com a arte, entretanto, tem ilustres antecedentes. Na década de 30, a celebradíssma Elsa Shiaparelli costumava contratar artistas como Salvador Dalí e Jean Cocteau para desenhar acessórios e tecidos, e muitas vezes, trabalhavam juntos na execução de um modelo. O chapéu em forma de sapato, que criou com Dalí, ilustra magistralmente essa união perfeita: tem a originalidade de uma de obra-de-arte, e a funcionalidade de um acessório de moda.


