Quando chegou às telas há 53 anos, ‘‘O Ébrio’’ parou literalmente o centro do Rio de Janeiro. Houve engarrafamento gigantesco, as filas estenderam-se por quarteirões e quem viveu essa experiência sabia que participava de um momento histórico. O sucesso carioca repetiu-se por todo o País, mas com o passar dos anos o filme caiu no ostracismo. Hoje (dia 29), na Cinemateca de Curitiba, ‘‘O Ébrio’’ entra em cartaz, com cópia recentemente restaurada pela Cinédia e Riofilme.
Foram dois anos de trabalho para trazer de volta as imagens que estavam se perdendo. A nova fita traz além dos fotogramas recuperados, mais 20 minutos de cenas suprimidas nas últimas versões exibidas nos cinemas. A trilha sonora foi inteiramente reconstruída com a utilização parcial de tecnologia digital, sendo remixado emm Dolby Stereo e Dolby Surround.
12 milhões‘‘O Ébrio’’ levou para as salas de projeção nos anos 40, mais de 12 milhões de espectadores. A receita para o sucesso incluiu uma obra artística bem acabada, a presença do galã Vicente Celestino, cantor de ópera que trocou os palcos eruditos pela música popular, e a música-tema do filme.
A letra da canção é narrada na primeira pessoa. Um homem conta o porquê de sua derrocada na vida, depois de ter conseguido ‘‘os píncaros da glória’’. Composta e gravada pelo próprio Celestino, em 1936, transformou-se em peça teatral homônima em 1942.
No filme Gilberto Silva é um ser errante, depois que a família perde os bens que possuía. Acolhido por um padre, estuda Medicina e se torna conceituado cirurgião. Mas como alimenta o gosto pelo canto, arrisca a carreira musical e torna-se um intérprete de sucesso.
O mar de rosas seca repentinamente quando sua mulher o abandona, trocando-o por seu primo. Sem perspectivas, Silva entrega-se à bebida. Transformado em alcoólatra vai perdendo tudo que havia conseguido. Resta-lhe as ruas e a longa confissão que ele faz no filme e na música, ainda hoje consumida por saudosistas e curiosos.
Gilda de Abreu, a diretora do filme, era mulher de Vicente Celestino. Também ela vinha das produções operísticas, e se deu bem no cinema. Assinou outras direções com êxito, mas teve que aguentar a fúria dos fãs do marido. Muita gente deixava o cinema confundindo fantasia com a realidade, e acreditava que Gilda era a causadora da desgraça de Vicente Celestino.
O cantor morreu no dia 23 de agosto de 1968. A exibição de ‘‘O Ébrio’’, que vem percorrendo diversas cidades brasileiras, desde agosto do ano passado, insere-se nas homenagens dos 30 anos de seu falecimento.

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