Um dos grandes clássicos da cinematografia brasileira está disponível em vídeo, mais de 55 anos depois de ser lançado nos cinemas cariocas. ‘‘O Ébrio’’, produção da antiga Cinédia, chega ao mercado pela Warner Homer Video, em versão remasterizada e integral, contendo duas canções que entoaram muita noites regadas a álcool – ‘‘O Ébrio’’ e ‘‘Portas Abertas’’ (no filme, orquestradas por Júlio Cristóbal).
O filme, dirigido por Gilda Abreu (possivelmente a primeira cineasta brasileira), parte de um argumento do ator e cantor Vicente Celestino, célebre pelo estilo um tanto empostado. Celestino apoiava-se em sua voz inquebrantável, um estilo que ficaria fora de moda nos anos 50, estimulando as mudanças radicais propostas por João Gilberto no início da bossa nova.
A trama é um dos melhores exemplos da influência do chamado ‘‘cinema de lágrimas’’ produzido no México nos anos 40 e 50. O melodrama, base das produções mexicanas, consolidou-se a partir de um princípio posteriormente sintetizado em uma frase do personagem de Celestino em ‘‘O Ébrio’’, o mal fadado Gilberto Silva: ‘‘Eu disse que perdoava, mas não disse que me reconciliava’’. Essa sentença explicita o confronto que se instala em tramas melodramáticas – a autocomiseração, em detrimento da estabilidade emocional. A tese é a mesma defendida pelo cineasta Nélson Pereira dos Santos, autor de ‘‘Cinema de Lágrimas’’ (1995), e é praticamente uma extensão à definição que a crítica de teatro Mariangela Alves de Lima atribuiu ao surgimento do gênero dramático: ‘‘Quando a vontade de deus é contrária à vontade do indivíduo’’.
Gilda Abreu roteirizou ‘‘O Ébrio’’ em estilo clássico, definindo os personagens por meio de suas falas, previsíveis e até certo ponto ‘‘melosas’’, em todos os 141 minutos da fita. Celestino é o empresário Gilberto Silva, que após ser enganado pela esposa – ela foge com o amante –, torna-se alcóolatra, seguindo a máxima ‘‘Bebo para esquecer’’.
A fotografia e a montagem são os melhores atributos dessa produção em preto-e-branco, ambas orientadas por Afrodísio Castro. O elenco traz atores conhecidos do teatro carioca na época - Alice Archambeau, Rodolfo Arena, Manoel Vieira, Victor Drummond, Julia Dias e Walter Davila.
O grande destaque na fita é a produção de Adhemar Gonzaga, um dos heróis do cinema brasileiro. Ele fundou a Cinédia nos anos 30, uma época em que ninguém acreditava ser possível produzir cinema no País. Criou a revista Cinearte, publicação que buscava, assim como as revistas sobre Hollywood, incentivar o fãs-clubes de atores brasileiros. Aliou-se a Humberto Mauro e praticamente ‘‘bancou’’ alguns dos filmes do cineasta mineiro. Junto a Mário Peixoto, Edgard Brazil, Mauro e Paulo Emílio Salles Gomes, integra o grupo dos pioneiros do cinema brasileiro.
Gonzaga conhecia de perto o estilo dos filmes americanos. Cenários suntuosos, tramas rocambolescas, figurinos invejáveis. Seu sonho era que no Brasil fosse possível produzir como em Hollywood. Mas não uma cópia, e sim, trazer dos ‘‘american movies’’ o que havia de bom.
Por qualidade, Gonzaga entendia ‘‘grande espetáculo’’. E por espetáculo, uma obra refinada em todos os seus segmentos: cenário, figurino, iluminação, roteiro, montagem e direção.
Apesar da boa produção de Gonzaga, ‘‘O Ébrio’’ é um daqueles filmes datados, que revistos hoje, vale mais pelo sentido histórico do que pelo potencial estético. Não é uma obra a ser desprezada, mas não consegue se sustentar entre os grandes melodramas do cinema, como ‘‘Sedução da Carne’’ de Luchino Visconti e ‘‘Palavras ao Vento’’ de Douglas Sirk, outro dos mestres do ‘‘fazer chorar’’. No Brasil, um bom exemplo de melodrama eficaz é ‘‘Floradas na Serra’’, produção da extinta Companhia Cinematográfica Vera Cruz, estrelado por Cacilda Becker e Jardel Filho e dirigido por Luciano Salce. Apesar desses problemas, ‘‘O Ébrio’’ foi um dos grandes sucessos do cinema brasileiro na época.

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