'O ÉBRIO' CHEGA ÀS VIDEOLOCADORAS
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segunda-feira, 23 de julho de 2001
Rodrigo Souza Grota De Londrina 
Um dos grandes clássicos da cinematografia brasileira está disponível em vídeo, mais de 55 anos depois de ser lançado nos cinemas cariocas. O Ébrio, produção da antiga Cinédia, chega ao mercado pela Warner Homer Video, em versão remasterizada e integral, contendo duas canções que entoaram muita noites regadas a álcool O Ébrio e Portas Abertas (no filme, orquestradas por Júlio Cristóbal).
O filme, dirigido por Gilda Abreu (possivelmente a primeira cineasta brasileira), parte de um argumento do ator e cantor Vicente Celestino, célebre pelo estilo um tanto empostado. Celestino apoiava-se em sua voz inquebrantável, um estilo que ficaria fora de moda nos anos 50, estimulando as mudanças radicais propostas por João Gilberto no início da bossa nova.
A trama é um dos melhores exemplos da influência do chamado cinema de lágrimas produzido no México nos anos 40 e 50. O melodrama, base das produções mexicanas, consolidou-se a partir de um princípio posteriormente sintetizado em uma frase do personagem de Celestino em O Ébrio, o mal fadado Gilberto Silva: Eu disse que perdoava, mas não disse que me reconciliava. Essa sentença explicita o confronto que se instala em tramas melodramáticas a autocomiseração, em detrimento da estabilidade emocional. A tese é a mesma defendida pelo cineasta Nélson Pereira dos Santos, autor de Cinema de Lágrimas (1995), e é praticamente uma extensão à definição que a crítica de teatro Mariangela Alves de Lima atribuiu ao surgimento do gênero dramático: Quando a vontade de deus é contrária à vontade do indivíduo.
Gilda Abreu roteirizou O Ébrio em estilo clássico, definindo os personagens por meio de suas falas, previsíveis e até certo ponto melosas, em todos os 141 minutos da fita. Celestino é o empresário Gilberto Silva, que após ser enganado pela esposa ela foge com o amante , torna-se alcóolatra, seguindo a máxima Bebo para esquecer.
A fotografia e a montagem são os melhores atributos dessa produção em preto-e-branco, ambas orientadas por Afrodísio Castro. O elenco traz atores conhecidos do teatro carioca na época - Alice Archambeau, Rodolfo Arena, Manoel Vieira, Victor Drummond, Julia Dias e Walter Davila.
O grande destaque na fita é a produção de Adhemar Gonzaga, um dos heróis do cinema brasileiro. Ele fundou a Cinédia nos anos 30, uma época em que ninguém acreditava ser possível produzir cinema no País. Criou a revista Cinearte, publicação que buscava, assim como as revistas sobre Hollywood, incentivar o fãs-clubes de atores brasileiros. Aliou-se a Humberto Mauro e praticamente bancou alguns dos filmes do cineasta mineiro. Junto a Mário Peixoto, Edgard Brazil, Mauro e Paulo Emílio Salles Gomes, integra o grupo dos pioneiros do cinema brasileiro.
Gonzaga conhecia de perto o estilo dos filmes americanos. Cenários suntuosos, tramas rocambolescas, figurinos invejáveis. Seu sonho era que no Brasil fosse possível produzir como em Hollywood. Mas não uma cópia, e sim, trazer dos american movies o que havia de bom.
Por qualidade, Gonzaga entendia grande espetáculo. E por espetáculo, uma obra refinada em todos os seus segmentos: cenário, figurino, iluminação, roteiro, montagem e direção.
Apesar da boa produção de Gonzaga, O Ébrio é um daqueles filmes datados, que revistos hoje, vale mais pelo sentido histórico do que pelo potencial estético. Não é uma obra a ser desprezada, mas não consegue se sustentar entre os grandes melodramas do cinema, como Sedução da Carne de Luchino Visconti e Palavras ao Vento de Douglas Sirk, outro dos mestres do fazer chorar. No Brasil, um bom exemplo de melodrama eficaz é Floradas na Serra, produção da extinta Companhia Cinematográfica Vera Cruz, estrelado por Cacilda Becker e Jardel Filho e dirigido por Luciano Salce. Apesar desses problemas, O Ébrio foi um dos grandes sucessos do cinema brasileiro na época.


