O CINÉFILO FIEL -

O Duelo Final - um duro golpe na misoginia ancestral

Filme é algo atualmente em falta em Hollywood: de grande orçamento, inteligente, ousado e, acima de tudo, produto de uma colaboração artística admirável

Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Carlos Eduardo Lourenço Jorge

Você aí, que está de volta às salas, faça justiça a esse retorno e, se ainda não foi, vá buscar sua segunda recompensa (James Bond trouxe a primeira) da temporada.


Os multiplex da cidade vão oferecer apenas mais uma semana de exibição.   O filme trata, em linhas gerais, do último duelo oficial, portanto “legal”, na história da França, ocorrido em 29 de dezembro de 1386. Como fato gerador, Sir Jean de Carrouges (Matt Damon) desafiou o escudeiro e também Sir Jacques Le Gris (Adam Driver) para um duelo até a morte, a cavalo, com lanças, espadas, machados e facas.


A acusação – o estupro de Marguerite (Jodie Comer) por Le Gris enquanto o marido Carrouges estava fora, denunciado pela própria mulher – gerou um processo político e religioso que forçou o Rei Carlos VI a autorizar o combate em praça pública entre os dois súditos.    

 

Duelo até a morte por causa de uma acusação de estupro é o tema central do filme
Duelo até a morte por causa de uma acusação de estupro é o tema central do filme | Divulgação
 


O inglês Ridley Scott, desde sua estréia em 1977, com o belo “Os Duelistas” (exibido pelo Ouro Verde em 1978), há décadas faz filmes sobre como os sistemas de poder existem para servir apenas aos poderosos, desde as corporações sem rosto de “Alien” aos policiais indiferentes de “Thelma e Louise”. Seu cinema nem sempre foi ótimo como gostaríamos, mas como se sabe “nobody is perfect”...


Mas enquanto “The Last duel” chega à sua conclusão sangrenta brutal, e seus dois protagonistas se enfrentam, fica claro que a lealdade do cineasta está em outro lugar.  


“O “Último Duelo” de dividido em três partes. Todas as três contam a mesma história, narram o mesmo fato. Ou quase. Há variações mínimas. Mas importantes por sua significância. Entre si, são as versões de cada um dos personagens de um acontecimento trágico e violento. O recurso banal e talvez extravagante para narrar um enredo único tem a capacidade de criar um efeito único.


O filme de Scott é uma visão caleidoscópica de uma circunstância subjetiva. É também um novo extremo do narrador não confiável e da conotação moral. Scott, que trabalhou temas semelhantes no clássico “Gladiator”, encontra em “O Último Duelo” um espaço semelhante ao enfrentado pelo general romano.


Mas enquanto Maximus Decimus Meridius lutava por identidade e justiça, os personagens aqui lutam pela verdade. Um questionamento insidioso que percorre toda a trama e se espalha por todos os personagens como uma onda.    



Em "Gladiador", o diretor usou o contexto histórico para se envolver com temas como lealdade, poder e integridade. Em "O Último Duelo", a percepção é sobre um espaço perturbador em que o todo depende de pequenos detalhes coesos e/ou distorcidos.


Aos poucos, o filme deixa claro porque é preciso não falar a verdade, mas também subjetivamente. Nesse grande duelo de percepções em que a vida e a morte se fragmentam e se transformam em ideias dolorosas, muda a versão do mal. Também a do bem, da culpa, do tempo e da busca de significados para temas tradicionais da época, os fins da baixa Idade Média, reconhecidamente um período de muita convulsão e incerteza.    


O filme toma o seu tempo necessário – para entrar na intimidade dos personagens principais e para contar uma história na qual a dissecação do poder é intrínseca. Fala-se de reconstruir espaços inacabados e criar novos. Em si, cada personagem e uma concepção dissociada da trama.


Toda a história não existiria sem a divergência e a fratura que Ridley Scott usa para montar o bom roteiro de Damon, Ben Affleck e Nicole Holofcner (baseado no livro homônimo de Eric Jager, que se baseou em fatos comprovadamente reais). Esse é ponto capital do filme: a forma como elabora, constrói e demarca os territórios da verdade, da mentira e da lealdade.        


A outra camada da história também tem tudo a ver com gênero. Por ser uma história medieval, o filme deixa claro que a sociedade só leva em conta os depoimentos dos homens, o que coloca Marguerite em posição de total vulnerabilidade. Nesta circunstância, em que muitas coisas daqueles anos 1.300 persistem ainda hoje (e há um diálogo notável no julgamento, durante as humilhações cometidas pelo clero), “The Last Duel” aprofunda a discussão sobre a misoginia, o machismo, as desigualdades na relações da mesa pra a cama, a violação da identidade pelo acordo patriarcal onde ciência e lei estavam a serviço de Deus.


E aí a história vai atrás da verdade provocando uma revisão estimulante a partir de cada uma das visões expostas.   É um filme excelente não porque nos surpreende, nos fornece visões do infinito ou definições de Deus, mas porque é preciso, inteligentes, civilizado e porque em nenhum momento distorce seu propósito narrativo. 

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