O dono da voz
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de outubro de 2008
Márcio Maio<br> TV Press 
Lázaro Ramos nunca se sentiu tão ''em casa'' na tevê. O ator protagoniza o seriado ''Ó Paí, Ó'', que estréia na próxima sexta-feira, e que exalta sua terra natal, a Bahia. Além disso, Lázaro trabalha no programa com o grupo de teatro no qual começou a estudar interpretação, o Bando de Teatro Olodum. A volta às raízes, segundo ele, ajuda não só a melhorar profissionalmente, mas também a se manter ''com os pés no chão''. ''Parece chover no molhado, mas preciso estar perto disso para que meu ego não cresça. Sei que a minha realidade é diferente da dos outros atores negros no Brasil'', analisa. Na série, Lázaro interpreta um cantor engajado em causas sociais que luta para viver de sua arte. Para encarnar o papel com mais intensidade, entrou em estúdio e gravou dez músicas. ''Ator tem mania de dizer que é o personagem quem está cantando. Entrei nessa onda e mandei ver, sem medo se ia ficar ruim. Facilitou meu trabalho e tornou esse processo bem mais divertido'', brinca.
Você começou estudando interpretação com o Bando de Teatro Olodum. Depois de ficar famoso, voltou a atuar com o grupo no cinema e, agora, na tevê. Como foi esse retorno?
Quando surgiu a oportunidade de fazer o filme, tive dúvidas se conseguiria me adaptar novamente à maneira de atuar do grupo. Eles têm um tempo de comédia diferente e que é espetacular, mas também difícil de acompanhar. Uma coisa que não é dada pela edição, vem na cena. Mas descobri que isso também permanecia em mim. Vi que levei essa característica para os outros trabalhos que fiz e talvez isso tenha agradado a ponto de eu me manter na tevê. Mesmo sendo baiano e negro como eles. ''Ó Paí, Ó'' é a porta de entrada para eles experimentarem isso também.
O filme ''Ó Paí, Ó'' não teve grande público no cinema. O que a série tem que pode alavancar a audiência?
Em primeiro lugar, mais dinheiro. A estrutura é bem diferente da que a gente teve no filme. Mas não sei avaliar muito bem essas coisas. Penso que se a televisão é feita para as massas populares mesmo, esse pode ser um ótimo teste. Muitos dizem que falta cultura e espaço para explorar valores nacionais na televisão. Fico curioso para ver o que vai acontecer quando o programa estiver no ar. Acho que só depois de exibir os episódios vamos poder avaliar se o público se interessa ou não pela cultura que está fora do eixo Rio-São Paulo. O grupo tem um trabalho incrível e acredito que isso vai agradar muita gente. E o seriado não é só Bahia, existem valores ali. Fala-se sobre pirataria, vários simbolismos, casamento gay, adoção de crianças, tudo de maneira leve. Além da música.
A música baiana é bem-sucedida no Brasil. Se ''Ó Paí, Ó'' garantir uma segunda temporada na Globo, você pensa em se dedicar mais à divulgação da Bahia através da interpretação?
Essa é uma das coisas que ficam na minha agenda pessoal. Não que seja uma bandeira ou atitude política, mas faz parte da minha formação. É a maneira como sei lidar com o mundo como artista. Venho da Bahia, estou sempre visitando o estado e a maior parte da minha bagagem vem de lá. É um patrimônio cultural e precisa abrir essa porta. O próprio nome da série já chama atenção para isso.
O que significa ''Ó Paí, Ó''?
Olhe para isso, olhe! Preste atenção no que está aí! E funciona muito bem para essa história, que é contada por pessoas que batalharam até chegar à tevê. O Bando de Teatro Olodum começou se apresentando nas ruas, passou para o teatro e, depois, alcançou o cinema. Essa evolução não teria êxito se ele não merecesse a atenção do público.
Você fala em chegar à tevê, mas se manter no veículo é difícil. Você acredita que, mesmo que ''Ó Paí, Ó'' não tenha uma segunda temporada, alguns desses atores conseguirão outras oportunidades na teledramaturgia?
Não podemos prever isso. A gente sabe que é difícil para um artista negro ingressar na tevê. Mas existem esses talentos, eles botaram o pé na porta e entraram. Agora, o mercado é que vai ver o que pode perder ou não. Acho que mais importante que o mercado dar chance a eles é esse mercado saber que pode contar com profissionais com esse talento. Muitos dizem que faltam atores qualificados para a tevê, mas esses estão aí. Fica na mão das pessoas que têm esse poder de decisão. Mão-de-obra boa a gente tem.
Você sempre tenta, em seus trabalhos, levantar questões sociais, como o racismo e a exclusão social. Como negro e nordestino, o que você acha que mudou desde que você começou?
Tento levantar essas questões sim, mas esse é um movimento que acontece no país há muito tempo. Sinto orgulho por usar as oportunidades que me dão para isso, mas não sei se ajudei especificamente com alguns dos meus trabalhos. Acho que as mudanças acontecem porque os brasileiros, de um modo geral, buscam isso. E, já que saímos da ditadura e podemos falar sobre a diversidade, vamos fazer a nossa parte. Só não acho que tenha de ser feito de forma pesada.
Você já recusou trabalhos por não estarem dentro desse objetivo?
Não, eu sei que nem todos os papéis que me oferecerem vão ter um conteúdo político. Mas isso é algo que me aproxima ainda mais do Bando de Teatro Olodum. Eles me dão uma espécie de consultoria sobre esse assunto.
Como? Eles ajudam você a selecionar seus papéis?
Também, muitas vezes consulto essas pessoas antes de aceitar um trabalho. Mas quero dizer na forma da abordagem. Às vezes uma orientação de como construir um personagem muda toda essa visão. Falando assim, pode parecer uma grande besteira. Mas faz uma grande diferença.
- 'Ó Paí, Ó' - Estréia sexta-feira, dia 31, depois do ''Globo Repórter'', na Globo.


